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Saturno: Um Muro, Duas Torres …

Silvia Ceres (Argentina) em 13 de outubro de 2006

Assim como nossa memória relaciona rapidamente determinadas datas com acontecimentos, por exemplo: 1492, chegada dos espanhóis à América, expulsão de árabes e hebreus da península hispânica; 1789, Revolução Francesa; 1914, I Guerra Mundial; 1917, Revolução Bolchevista 1929, crise econômica; 1936, Guerra Civil Espanhola; 1944, fim da II Guerra Mundial; etc. etc., dentro de um tempo, haverá duas datas que terão um lugar importante nos livros de historia e, portanto, na memória dos indivíduos: 9 de novembro de 1989 e 11 de setembro de 2001.

Dois acontecimentos que sem dúvida são marcos, momentos em que a historia produz uma curva e começa a deslizar em outra direção. Embora ainda não saibamos bem, devido a proximidade no tempo, se possuem a significação de outros acontecimentos anteriores que modificaram radicalmente a vida de boa parte da humanidade, sabemos que causaram o enorme impacto que levou um milhões de pessoas a seguirem minuto a minuto um e outro acontecimento, sentadas na poltrona de casa, através das câmeras da televisão.

O fenômeno visual, que multiplica os testemunhos da ação, rompe a sensação de que os fatos só afetam aos alemães ou aos nova-iorquinos. “Todos” estávamos ali vendo como uma multidão derrubava o Muro ou os aviões se chocavam contra as Torres. Algo mudou para sempre como produto do imediatismo da imagem, nossa tela nos mostrava mais que as noticias diárias. Fomos testemunhas, a milhares de quilômetros de distancia, de fatos que, além de envolver aos protagonistas que estavam na cena dos acontecimentos, produziram efeitos posteriores que mudaram a existência de grandes massas da população humana – desmembramento da URSS, guerra contra o Afeganistão, invasão do Iraque, para enunciar apenas alguns exemplos.

O Muro de Berlim foi construído em 13 de agosto de 1961 e caiu, como já citamos, em 9 de novembro de 1989.

As Torres Gêmeas foram inauguradas em 4 de abril de 1973 e destruídas em 11 de setembro de 2001.

Um, o reflexo do poderio militar, as outras, o reflexo do poderio financeiro. Construções que estiveram de pé 28 anos, uma cifra que não passa despercebida para os astrólogos. Efetivamente, ambas duraram um ciclo de Saturno e algo deve significar. Disto trata este trabalho, de tentar desvelar o porquê destes símbolos de semelhante magnitude não poderem sobreviver ao primeiro retorno de Saturno.

Para isto comentaremos sobre a historia que circunda o Muro, as Torres e o que significa o ciclo de Saturno para, finalmente, dar algumas respostas possíveis para este interessante enigma. Se, como afirma Derrida, a Arquitetura é um texto, tentaremos desvelar a mensagem encerrada nas duas construções tão distintas, em forma e objetivo, porém, por sua vez, com um destino tão similar que suscita a pergunta: por que caem no momento em que se supõe que devem se consolidar?

Berlim tem um Muro

A linda cidade alemã de século XIII vai crescendo em extensão e importância até se converter, por sua atividade cultural e sua vida boêmia, em uma das principais capitais européias de fins do século XIX e princípios do XX.

Terminada a II Guerra Mundial, Berlim é dividida em quatro zonas de ocupação e fica submetida ao Conselho de Controle Aliado, poder estatal supremo no território dos vencidos.

A partir da fundação da República Federal da Alemanha (23 de maio de 1949) e da República Democrática Alemã (6 de outubro de 1949), Berlim oeste vai se integrando paulatinamente à área dos países ocidentais, enquanto que Berlim oriental foi se incorporando ao bloco dos países socialistas, cuja referência  é a URSS.

Numa manhã estival de agosto de 1961 uma novidade surpreende aos berlinenses e ao mundo todo: ao longo de 1350 km aparecem alambrados com torres de vigilância que vão desde o Mar Báltico até a fronteira com a Tchecoslováquia, pondo fim à livre circulação entre as duas metades da cidade.

O Muro passou a ser parte da paisagem cotidiana, algo tão característico da cidade como a porta de Brandemburgo.  Foi construído com Saturno em Capricórnio, sendo um tema  deste signo e do planeta a noção de muralha (de fato, em grandes trechos, eram alambrados de arame farpado, embora sempre tenha sido indicado como se fosse uma construção monolítica de tijolos), de fronteira, de limite.

Como símbolo do mundo bipolar da segunda metade do século XX, tinha o tom desse século denominado “o breve” pelo historiador britânico Eric Hobsbawn, que sustentava que havia começado em 1914 com o desenho de novos países como conseqüência da queda do império austro-húngaro e culminou em 1991, com o desmembramento da URSS. O mesmo historiador o define como um período de grandes movimentos de massas (Revolução Soviética, Revolução Chinesa, Brigadas Internacionais) assim como de importantes deslocamentos de exércitos (as duas Guerras Mundiais, desembarque da Normandia, batalha de Leningrado). Também a produção industrial se realiza de maneira massiva, com enormes conglomerados produtivos e um grande mercado de consumidores. O Muro, participando do espírito do século, era extenso, sólido, imponente.

O símbolo desta época, em que o poder mundial está concentrado em dois pólos antagônicos que de maneira tensa mantêm uma “Guerra Fria”, que foi bastante quente no que tange aos inúmeros conflitos e milhões de vítimas que padeceram no jogo entre as duas potencias, tinha que ser um enorme e execrável Muro que dividia o mundo em dois blocos. Tudo parece remeter a Capricórnio que, como signo Cardinal e de Terra, sente uma necessidade imperiosa de aumentar seu território ao mesmo tempo em que o defende de qualquer inimigo que possa ameaçar seu domínio.

Mas enfim, que função cumpria esta parede medianeira que dividia a Europa em duas?  Se compreendermos a tarefa que realizava, poderemos, talvez, entender porque, quando Saturno retornou a Capricórnio, essa construção sólida e ameaçadora, que parecia eterna, caiu como um castelo de cartas.

Alguns historiadores, como o americano Honore M. Catudel, em um estudo financiado pela Fundação Volkswagen, intitulado “Kennedy na crise do Muro”, questionam o papel das potencias mundiais. Em 13 de agosto de 1961, se limitaram a tomar conhecimento do levantamento do Muro ao dar-se conta que seus interesses não seriam tocados pela RDA.  Formularam, com grande atraso, uma nota de protesto, que em nenhum momento ameaçou sancionar a República Democrática em seu papel internacionalmente aceito de estado soberano no âmbito político, econômico, social, cultural e desportivo.

Em grande medida, a chamada pelos comunistas “Fronteira da Paz”, deu segurança a ambos os blocos, já que conseguia isolar um sistema social de outro, com o qual seu papel “saturnino” oferecia um bom resultado tanto para os países capitalistas como para os de trás da Cortina de Ferro. As tímidas demonstrações, como a de John F. Kennedy, quando declama frente ao alambrado de farpas: “Me sinto um berlinense mais”, não foram tomadas com seriedade nem por quem as emitiu.

Cumprido o ciclo de Saturno, já maturada a necessidade de avaliar o como e o para que da carapaça que protege tanto ao Oriente quanto ao Ocidente, esta é finalmente demolida porque já não serve aos projetos do poder. A fronteira gratificava o equilíbrio de forças entre o Primeiro e o Segundo Mundo.  A unificação de Berlim mostra o novo tabuleiro mundial, com um poder único e hegemônico cuja sede simbólica é Wall Street, ali perto de onde se levantam, eretas e orgulhosas, duas torres mundialmente famosas.

New York tem umas Torres

Projetadas pelo arquiteto americano de origem japonesa Minoru Yamasaki (1912 – 1986), algo nos recorda as comédias de erros.  Diz Luis Fernández Galiano [1]:

“O caso é que aos arquitetos nunca lhes agradou Yamasaki. Seu extraordinário êxito profissional, que o levou a projetar os arranha-céus mais altos do mundo, foi sistematicamente acompanhado por críticas contrárias. As próprias Torres Gêmeas, cuja destruição suscitou numerosos lamentos arquitetônicos, foram recebidas em seu dia inaugural com aberta hostilidade. Ainda que a inevitável visibilidade física e simbólica do World Trade Center garantisse ao seu autor um lugar nos livros de historia, a imagem que até então, com maior freqüência, se associava ao nome de Yamasaki nos manuais era a de um vôo controlado: a de um de seus primeiros projetos, um conjunto de habitações populares cujo calamitoso fracasso serviu para os críticos como ilustração do naufrágio da arquitetura moderna. Paradoxalmente, a popularidade posterior do arquiteto entre seus clientes árabes e asiáticos, se baseava precisamente em sua habilidade para vestir construções modernas com roupagens invocadoras da tradição vernácula; e, ironicamente, as torres agora desaparecidas eram reprovadas simultaneamente por sua abstração burocrática e sua pele neogótica: ser demasiado modernas em seus elementos geométricos e demasiado historicistas nos ecos venezianos de seus nervos verticais.”

É um sarcasmo singular que os símbolos gêmeos do capitalismo, destruídos presumivelmente pelo terrorismo aéreo do milionário saudita Osama Bin Laden, foram projetados pelo mesmo arquiteto que construiu a sede central da Agencia Monetária Saudita em Riad, além de dois grandes aeroportos na própria Arábia Saudita. E é um estranho giro da historia que o protagonista arquitetônico póstumo do Pearl Harbor nova-iorquino fosse um nisei – um japonês de segunda geração – nascido em Seattle, a mesma cidade onde se construíram os Boeing que se chocaram contra as torres; que trabalhou durante o último ano da Guerra Mundial no estúdio de Raymond Loewy, o desenhista industrial, de característico estilo aerodinâmico, que remodelou a imagem e os aviões da United Airlines, uma das duas companhias envolvidas nos atentados de 11 de setembro; e que alcançou seu primeiro reconhecimento internacional precisamente com um aeroporto, o terminal Lambert-St Louis, em Misuri.”

O arquiteto sofreu a discriminação racial que segregava os asiáticos nas piscinas, nos cinemas e nas residências (lei 9066 promulgada por Rooselvet) e, depois de uma infância e adolescência marcadas pela pobreza, se determinou firmemente a evitar a degradação da pobreza através do sucesso econômico.  Trabalhou com os profissionais que projetaram o Empire State e com os autores do Rockefeller Center.

Como uma última ironia, aquele que foi chamado “primeiro edifício do século XXI” havia sido apresentado pelo engenheiro Robertson, em sua inauguração em 4 de abril de 1973,  como capaz de agüentar a colisão de um Boeing 707, o avião de maior tamanho na época.  Em 11 de setembro de 2001, as Torres Gêmeas resistiram ao impacto de dois Boeing 767, porém não à imediata combustão de seus tanques repletos de gasolina para realizar o vôo da costa leste à oeste.

Gêmeos, o signo onde se encontra Saturno no “nascimento” das Torres, é um signo Mutável e de Ar, representado pelos gêmeos mitológicos Cástor y Pólux.  Se relaciona com a dualidade, o comercio, os meios de transporte, os meios de comunicação. E, como uma macabra brincadeira  – literalmente -, o mundo inteiro viu pela TV como dois aviões explodiram produzindo uma hecatombe nas duas torres onde se concentravam os escritórios do mundo financeiro no começo do século XXI.

Outros dados que somam características mercurianas -engano, mentira, furto, fraude- surgem do livro do professor Eric Danton “Divided We Stand” (1999), uma biografia das Torres Gêmeas. A partir do primeiro atentado levado a cabo em fevereiro de 1993, nasce no autor a curiosidade por estudar a origem e posterior desenvolvimento da gigantesca construção. A primeira surpresa é que quase não encontrou material a respeito, no entanto, existe uma farta bibliografia sobre a construção de outros arranha-céus notáveis dos USA.

Depois de um longo tempo investigando em uma biblioteca que funcionava no 55º andar da Torre 1, Danton descobre que um grande número de figuras de relevo no mundo político e financeiro da época estavam envolvidas em realizar um complexo imobiliário de proporções insuspeitadas em Manhattan Sul.  Resumindo: a construção das Torres foi o produto de uma obscura especulação financeira que teve como objetivo explícito supervisionar a atividade portuária de Nova York, mas que terminou sendo um enorme negócio imobiliário e se converteu no centro da especulação financeira do comercio globalizado.

O Sistema Solar tem Saturno

O planeta dos anéis era o último do sistema solar conhecido até o século XVIII, daí que era considerado o planeta do limite, o que marcava o perímetro do universo. Além dele se estendia o nada, a não existência, o inalcançável e desconhecido.

Relaciona-se com a realidade pragmática, o sentido do dever, a responsabilidade, as figuras de autoridade e a lei.  Quando pensamos em lei, imediatamente surge o critério jurídico que estabelece o que está permitido e o que está proibido, e, portanto, sancionado, em uma determinada época e cultura.  Porém, antes da lei jurídica existem as leis da física, essas que indicam que, inexoravelmente, ao dia se segue a noite, ao verão o outono e o inverno e as maçãs caem sempre em direção ao solo, como bem sabia Isaac Newton.  Esta qualidade de relacionar-se com o que acontece de maneira predeterminada e onde a vontade humana pouco pode fazer para torcer ou modificar, lhe agregou o nome de “planeta do destino”.

Porém vale a pena recordar que na antiguidade Saturno era um deus agrário que regia as colheitas, dando a cada um o fruto do plantio. E como sua justiça era rigorosa, premiava a quem havia se esforçado e castigava a quem, como a cigarra da fábula, não havia trabalhado e poupado.

Por extensão também regulava as relações sociais. Durante as festas saturnais, que se celebravam no mês de dezembro, sob o signo de Capricórnio, por alguns dias o escravo era amo e o amo era escravo. Assim também cada um colhia neste momento o fruto de suas ações.

Que ocorre na vida pessoal quando Saturno cumpre seu ciclo, retornando ao seu lugar do nascimento? Cobra-nos para que nos tornemos pessoas responsáveis, cumprindo com as metas de fazer algo sólido na vida: estabelecer uma família, criar filhos, fortalecer-nos em nosso trabalho ou profissão. Citando a frase bíblica, nos recorda que “ganharás o pão com o suor de teu rosto e parirás com dor“.

É um período para construir as bases da vida adulta, para ocupar um lugar no mundo, para avaliar os sonhos e desejos da primeira etapa da vida e para trabalhar com empenho na realização daquelas idéias que, na verdade, possam permanecer. Dito de outra maneira, já não é suficiente sentir-se um artista, é necessário referendá-lo com a obra. Por fim às postergações de nossos desejos, é a hora de realizá-los ou de abandoná-los para sempre.

Se transferirmos esta circunstancia ao campo social, podemos nos permitir pensar que tanto o Muro como as Torres respondiam a certos sonhos adolescentes de domínio e poderio e, portanto, o retorno de Saturno cumpriu a função de jogar por terra essas ambições desmedidas e recordar-nos que só somos seres humanos e que, por mais que nos vejamos como fortes, estamos bem longe de ser deuses ou donos da vida e da liberdade de nossos semelhantes.

Silvia Ceres é diplomada pelo Centro Astrológico de Buenos Aires (CABA), Argentina.
Desde 1995 difunde a Astrologia através do site Gente de Astrologia, GEA (www.gente-de-astrologia.com.ar), a primeira revista astrológica eletrônica, que hoje alcança quarenta e dois países.

É autora dos livros: Astrologia Infantil.La carta natal de um niño; Astrologia, trabajo y crisis, Guia para la orientación vocacional; Astrosociologia , Sincronia de los Ciclos Planetários

 

Rio de Janeiro, 13 de Dezembro de 2006


[1] Diario El País, España. 06/10/2001.

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