Artigos

Mercúrio e a Pós-Modernidade

Silvia Ceres (Argentina) em 28 de agosto de 2008

(Palestra proferida em 21/08/2008 no Espaço do Céu)

No início dos anos 60 – coincidindo com o final da reconstrução europeia – se percebiam os indícios de uma nova tecnologia que se desenvolverá rapidamente, especialmente nos meios de comunicação.

Diferentes correntes de pensamento acompanharam a nova etapa, até que em 1979, Jean- François Lyotard (1924/1998) publicou La Condición Post Moderna. O texto coloca em discussão o critério de “verdade” como um valor absoluto e homogêneo, questionando se a história possui, em si mesma, um sentido.  Sua incredulidade a respeito dos relatos totalizadores -a história, a filosofia, as ideologias, etc.- impugna as grandes correntes de pensamento -idealismo, iluminismo, cristianismo, marxismo ou liberalismo- enquanto movimentos dirigidos a impor uma verdade determinada. A intenção de Lyotard não é encontrar alternativas aosmetarelatos; propõe atuar em espaços diferentes, produzindo mudanças concretas.

Astrologicamente podemos enunciar uma crise de Júpiter, o planeta do sentido, e uma certa guinada para a valorização de Mercúrio em Virgem –espaços diversos, mudanças concretas.

Paulatinamente, se insinua a ruptura do imaginário linear por um plural, o espaço deixou de ser infinito para possibilitar uma visão minimalista, questionando-se a “essência do ser” e exaltando-se as diferenças. Apesar das discrepâncias que caracterizam os pensadores pós modernos, todos coincidiram na impossibilidade do conhecimento da realidade, sobre a qual só possuímos relatos e imaginários simbólicos.

Esta “cultura do zapping”, fragmentada, simultânea e veloz produziu notáveis mudanças culturais e sociais.

A conjunção de 1980

Na perspectiva astrológica, a conjunção de Júpiter e Saturno de 1980 – pertencente ao ciclo de duzentos anos de conjunções no elemento Terra, concluído em 2000 – ao invés de efetuar-se em Virgem, ocorreu em Libra, acompanhando a explosão dos novos sistemas de comunicação: Internet, fibra óptica, telefonia móvel, TV a cabo, etc.

Em certo sentido, é possível pensar na entronização de Mercúrio, porém, paradoxalmente, também se observa uma serie de dificuldades no âmbito da comunicação: empobrecimento da linguagem, limitações de compreensão, problemas de aprendizagem.

Este panorama ambíguo – excesso de informação / pobreza ou impedimento de comunicação – gera a necessidade de reformulação de certos conceitos tradicionais referentes ao funcionamento de Mercúrio.

Retomando o assunto da conjunção dos cronocratores, que  realizou-se em 31 de dezembro de 1980, às 14:45 GMT. Júpiter e Saturno se encontravam em 09º29’ Libra, em quadratura quase partil – menos de 1º de orbe – com Mercúrio em 10º09’ Capricórnio.

A configuração do momento informa com clareza sobre o fenômeno ambíguo antes mencionado: excesso por um lado – Mercúrio/Júpiter, empobrecimento por outro – Mercúrio/Saturno.

A geração pós-alfabética

O linguista italiano Franco Belardi assinala o mesmo ano – 1980 – como o do nascimento da chamada geração pós-alfabética, definida como as primeiras crianças que, na historia da humanidade, aprenderam mais palavras com um aparelho – a TV – do que com sua mãe.

O fenômeno apresenta vários matizes:

– Incorporação da linguagem esvaziada do afeto, prescindindo da proximidade corporal.

– Falta de graduação na aprendizagem, já que uma criança de 2 anos compartilha a audiência do mesmo programa com seu irmão de 6 anos, sem uma escala adaptada às diferentes idades e respectivas capacidades de compreensão.

– Linguagem estandardizada em um idioma neutro, carente de traços próprios do meio ambiente.

– Primazia da imagem sobre o conteúdo do discurso.

– Excesso de estimulação. Os meios de comunicação crescem em sua possibilidade de emissão mais rapidamente do que a capacidade de recepção do cérebro humano, obrigando-o a uma captação global e não linear. O controle remoto, tal como as múltiplas “janelas” do PC, possibilitam a interação com diferentes temas de forma simultânea.

A simultaneidade de recepção gera associações neuronais diferentes das constituídas pelas gerações anteriores através da aprendizagem progressiva, tanto da fala quanto da escrita. Belardi assinala o divórcio perceptivo entre a geração alfabética, caracterizada por um aprendizado paulatino, linear, graduado, racional e lógico (similar à descrição astrológica tradicional de Mercúrio) e a geração pós-alfabética, imersa em um aprendizado simultâneo, superposto, visual e múltiplo.

Algumas reflexões a respeito do significado de Mercúrio

A realidade, então, nos convida a repensar as qualidades de Mercúrio e, para isto, seguirei as grandes linhas da conferência sobre o planeta, ministrada pelo astrólogo Oskar Adler (1875/1955), que, sem dúvida, abre o conceito estreito de Mercúrio como significador de pensamento racional.

Enquanto regente de dois signos mutáveis, Gêmeos e Virgem que por sua vez fecham os quadrantes I e II, sua tarefa é realizar uma síntese habilitadora da etapa seguinte.

Cada quadrante se inicia, no zodíaco em repouso, com um signo cardinal cuja energia se direciona para o objeto-mundo; é seguido por um signo fixo que se redobra sobre o sujeito em si mesmo; para concluir no signo mutável, cuja função é restabelecer continuamente a unidade entre o ativo e o passivo, entre o observado e o observador.

Além da função conciliadora – compartilhada com Júpiter, o outro regente dos signos mutáveis – é interessante observar a relação de Mercúrio com os luminares, onde também parece cumprir uma função integradora da emotividade, de natureza lunar, e a vontade de poder, do universo solar.

Recordemos que  governa os signos contíguos aos regidos pelos luminares: Gêmeos precedendo a Câncer e Virgem sucedendo a Leão. A linguagem -Gêmeos- habilita o mundo íntimo, pessoal e emotivo de Câncer e a intervenção modificadora da matéria -Virgem- como prova da capacidade para constituir e modelar o projeto solar – Leão. Construída a instância: linguagem / pertinência / poder / modificação da realidade, se faz possível aceder-se a exogamia através da cooperação com outros no início da vida social – Libra.

O antropólogo Claude Levy Strauss, unifica o início da exogamia com a origem da cultura. Seguindo com nossa linha de pensamento, sem Mercúrio o humano não pode aceder à cultura, ficando imerso no mundo da natureza. Correndo o risco de um excesso de simplificação, podemos enunciar a seguinte equação: um macaco + Mercúrio = um humano.

Reforçando ainda mais a relação de Mercúrio com os luminares, diremos que não só governa os signos laterais, senão que a dinâmica das regências indica também outras combinações. Em seguida à queda do Sol e da Lua -Libra/Escorpião- e de seu exílio -Capricórnio/Aquário-,  encontramos o exílio de Mercúrio –Sagitário/Peixes.

A partir da análise realizada, podemos inferir a proeminência dos aspectos entre Mercúrio e os luminares.

Com o Sol só pode realizar conjunção, convertendo-se em uma fonte de argumentação lógica da vontade solar. Por isso, pode se encontrar debilitada sua função crítica e discriminadora.

Com relação aos contactos Mercúrio/Lua, é possível pensá-los como uma acentuação da natureza terrestre.

A conjunção assinala uma destacada capacidade no uso da linguagem; as palavras atendem facilmente às necessidades do pensamento. O aprendizado de uma língua estrangeira se realiza com extraordinária facilidade, quase como se fosse a língua materna.

O aspecto harmônico denota um talento especial no uso da razão, outorgando uma importante cota de sentido comum.

Quanto aos aspectos desarmônicos, indicam certa dificuldade para harmonizar as emoções com o intelecto, exigindo um ajuste permanente da disputa gerada entre a demanda emotiva e a racional.

Mercúrio foi definido, tradicionalmente, como um planeta hermafrodita, em função de possuir, simultaneamente, energia masculina e feminina. Seu símbolo gráfico mostra na parte inferior uma cruz (Terra), na região intermediária um círculo (Sol) e, na área superior, um semicírculo (Lua). Síntese por demais gráfica da combinação do yang -Sol- entre dois signos yin -Terra e Lua.

A importância da língua materna

A Lua, ocupando a parte superior do símbolo de Mercúrio, não é um detalhe para deixar de lado visto que nos remete ao conceito de língua materna, ponto deficitário no acesso à linguagem da geração pos alfabética.

Denomina-se língua materna aquela que a criança aprende basicamente através de sua família, gerando um vínculo indissolúvel entre linguagem e identidade. Segundo o linguista Noam Chomsky pode ser aprendida até os 12 anos. Os fonemas não assimilados nesse período produzem uma “surdez linguística”, dificultando aceder ao pensamento, à aprendizagem, à educação em geral e ao conhecimento de uma segunda língua.

Stephen Krashen (1981) foi o primeiro psico-linguista que tentou, com um modelo, explicar como funciona a aquisição do idioma. Menciona a recepção de uma inúmera quantidade de estímulos que vão formando a rede de compreensão linguística. Porém estes estímulos devem passar por um filtro emocional – outra vez a Lua-, que é mais flexível em situações de confiança, afeto e carinho e mais resistente em situações de estresse.

Krashen atribui ao filtro emocional as diferenças no ritmo da aprendizagem.

De maneira que uma criança submetida a um bombardeio de estímulos impessoais -a televisão- tem mais dificuldades para incorporar o uso da linguagem. De fato, atualmente, um adolescente de formação media utiliza aproximadamente 650 palavras contra as 2000 de um adolescente da geração anterior à nascida a partir de1980.

Para terminar de transmitir a ideia da importância outorgada à língua materna, observemos que, em novembro de 1999, a UNESCO instituiu o dia 21 de fevereiro como Dia Internacional da Língua Materna.

Mercúrio nos elementos

As distintas tonalidades que Mercúrio toma de cada elemento se relacionam com quatro diferentes tipos de lógica ou de juízos.  Embora os textos falem de uma só forma de lógica -a lógica formal- destituída de conteúdo para se manter apenas com a adequação da estrutura, Adler afirmou a existência de diferentes tipos de lógicas.

Fogo: pensamento ético ou religioso. Lógica do “é assim”, da certeza.

Terra: pensamento prático e afirmativo. Lógica indutiva, do sentido comum ou prático.

Ar: pensamento teórico e apodítico -carente de contradições- cujo modelo paradigmático é o silogismo.  Lógica teórica, matemática ou dedutiva.

Água: pensamento artístico ou inventivo. Lógica que reconhece, intuitivamente, o que ainda não existe e que é capaz de criá-lo.

A função essencial de Mercúrio é facilitar ao Eu solar a absorção das energias hereditárias do Eu lunar.  De maneira que o aprendizado da língua materna outorga uma primeira identidade relacionada com a pertinência a um determinado grupo humano, cultural e familiar, para, em seguida, habilitar a um pensamento individual e próprio.

Enquanto Mercúrio é o instrumento de percepção universal do ser humano, apresenta características de amoralidade, pois carece de filtro seletor. O percebido se desprende do Bem e do Mal, o valor ético só é adquirido pela maneira como o Sol implementa essas percepções.

Astronomicamente não se afasta mais do que 28º do Sol. De maneira que o elemento solar determina três possíveis localizações para Mercúrio e uma faltante.

Sol de Fogo não está inclinado à lógica teórica (de Ar). Sua busca está centrada no significado, desinteressando-se da formulação racional do pensamento.

Sol de Terra não está propenso à lógica artística (de Água). Vai buscar o sólido, firme e existente na realidade.

Sol de Ar omite a certeza (de Fogo). Tenta explorar as múltiplas formas de percepção do mundo.

Sol de Água não se inclina para a lógica indutiva (de Terra). Tende à criatividade, construindo, de maneira imaginaria ou real, aquilo ausente na realidade concreta e visível.

Mercúrio em Fogo

Forte convicção interna sobre a qual constroem suas opiniões. É próprio do Fogo alocar a cada juízo lógico um juízo moral, que transmite como vontade infalível e inflexível, como se toda percepção estivesse sustentada por uma  verdadeira autoridade.

Daí a tendência a julgar à primeira vista e só mais tarde, se for necessário, oferecer alguma razão para esse juízo. A reflexão crítica aparece em segundo plano, habilitando o juízo criado por “intuição”, defendendo com afinco qualquer questionamento alheio. A agudeza desses juízos a priori, assim como as inexatidões, são defendidas com igual ímpeto.

Sol em Fogo: o pensamento é funcional ao Sol. Mercúrio se converte em uma espécie de ministro plenipotenciário cujo dever é justificar com um raciocínio posterior o que foi dito pela vontade dominante.

Sol em Água: o centro de atenção se fixa na região do desejo/temor [de que não se realize o desejado], de forma que o desejo se constitui no gerador do pensamento.

Sol em Terra: os motivos concretos se convertem no secreto inspirador de juízos ou opiniões.

Mercúrio em Terra

Neste elemento o planeta tem o poder de um pensamento adequado à realidade, capaz de perceber as conexões e as experiências mentais “puras”, excluindo ao máximo o fantástico para deixar reconhecível a realidade palpável. Possui uma excelente habilidade de observação.

A árdua tarefa para que a imaginação ocupe a mínima porção no pensamento, discriminando tão agudamente como possível entre os resultados do pensamento lógico “puro” e aquele proveniente do mundo da fantasia, o leva a uma autocrítica sempre alerta.

Sol em Terra: mantém uma férrea coerência entre a ação e o pensamento. Sua lealdade à palavra enunciada o leva a uma atitude cautelosa para não ficar envolvido em situações carentes de uma análise prévia exaustiva.

Sol em Fogo: a direção básica do pensamento será influenciada por um ideal de justiça ou de ordem ético, funcionando como guia de suas opiniões.

Sol em Ar: tendência a sistemas de pensamentos metódicos, planificados, que demandam constantemente a construção de edifícios sólidos e seguros.

Mercúrio em Ar

Encontra-se em território afim ao do pensamento teórico-dedutivo da lógica aristotélica, da pura lógica formal e do jogo com os conceitos – sofística. É um campo propício para as habilidades intelectuais, cuja forma mais pura se apresenta no pensamento matemático.

Carece de conexão com a vontade, enquanto o pensamento se desprende, independentemente de transformá-lo em algum tipo de ação. Sua preocupação é a relação pura e formal dos conceitos entre si.

As duas avaliações que formula são: correto ou incorreto. Verdadeiro ou falso é questionamento que está além do pensamento do Ar (nunca terá Sol em Fogo). O paradigma de seu funcionamento mental pode ser encontrado nos paradoxos de Zenón, onde a tartaruga resulta ser mais veloz que Aquiles “o dos pés ligeiros”, de quem ganha a corrida.

Sol em Ar: o interesse pelas formas linguísticas torna-se um valioso ajudante no caminho da busca, a dúvida e a refutação. Pode cair no extremo de acreditar que aquilo que não está em seu mundo mental carece de realidade.

Sol em Água: o universo da fantasia se expande em múltiplas opções e estratégias mentais com o fim de aproximar-se a seus desejos.

Sol em Terra: o mundo mental se torna menos abstrato, pois deverá aprovar continuamente o exame de “controle de qualidade” da realidade concreta, demonstrando sua operatividade.

Mercúrio em Água

Pensamento artístico e inventivo. O tipo de pensamento cuja visão recorre à imagem pálida da realidade e contempla profundamente dentro da corrente de possibilidades, de onde a pessoa, sendo capaz de absorver as energias criativas, eleva a “obra de arte”, colocando-a no mundo como uma peça ainda não criada pela natureza.

Este pensamento constitui a verdadeira lógica do pensamento de Água: a amalgama das energias mercurianas unidas à força da fantasia ou da  imaginação, a fim de criar no pensamento “o que nunca e em nenhuma parte tenha sido criado”.  

A razão se submete às influencias emocionais que atuam dentro deste modelo de maneira similar ao processo do sonho. É característico do pensamento de Água o ingresso de certas percepções que se mesclam com as próprias, formando uma onda de vibração em ressonância com sua consciência.

Sempre necessita estímulo externo, por sutil que seja, como uma pedra que cria, sem resistência, ondas concêntricas. Por tanto, todo contraste está suavizado. Esta suavidade harmoniosa pode, em certas oportunidades, converter-se em carência de crítica.

Sol em Água: o universo emocional adquire uma importante dimensão, definindo uma vida mais próxima do mundo onírico que da vigília. A intuição desbanca a razão.

Sol em Ar: a imaginação não tem fronteiras. O pensamento desenvolve uma profunda relação com a arte, especialmente a música, podendo ser definido como um “pensamento musical”, cuja melodia impregna a vida.

Sol em Fogo: os valores pessoais guiam a imaginação. A fantasia pode ser dirigida, porém nunca submetida ao controle da vontade. São geradas energias de grande intensidade.

Domicílios e exílios de Mercúrio

Em suas dignidades desenvolve sua função como intermediário entre o superior e o inferior, o externo e o interno, mediante um processo nivelador. Em Virgem -intestinos- de maneira prática; em Gêmeos – pulmões – de maneira teórica.

No primeiro caso – assimilação orgânica da alimentação – o objetivo é unificar as múltiplas percepções sob uma ordem em conformidade com a natureza. O sentido de eficácia, em seu sistemático ajuste no plano da organização, o leva a construir guiado pelo principio da completa harmonia de todas as partes. Virgem representa o ideal da organização humana, físico/espiritual, na qual todos os integrantes são nutrientes entre si.

Em Virgem existe a possibilidade de assimilação que alcança sua expressão máxima, onde finalmente o corpo, em todas as suas partes e mutua coordenação, é reconhecido como o arquétipo da ordem humana e divina.

Gêmeos suscita um processo perceptivo similar à respiração, onde os ritmos do metabolismo e o intercambio se manifestam através da divergência para alcançar a unidade.

O conhecimento adquirido (Gêmeos) amadurece e se afirma na prática (Virgem).

Com relação a seus signos de exílio, não reduzem nem debilitam as qualidades do planeta, pelo contrario as exacerbam ao tirá-las de foco. Entendemos as características do exílio como o fenômeno da surdez que leva o sujeito a gritar porque não se escuta. Surdez que nos exílios de Mercúrio se manifestam como carência de autocrítica.

Em Sagitário a certeza interior luta por apaziguar as duvidas decorrentes da lógica do pensamento.

No caso de Peixes resulta difícil cumprir com a exigência de minuciosidade, visto que a imaginação ocupa o lugar da discriminação. Além disso, sua extrema permeabilidade aos discursos do entorno, dificulta a formulação a partir de um pensamento crítico próprio.

Para uma conclusão

Após percorrer os possíveis posicionamentos de Mercúrio em uma carta natal, torna-se evidente que o desajuste da geração pode se relacionar com o funcionamento de um Mercúrio com características mais similares à percepção criativa da Água [modalidade fluente e associativa a partir do visual], ou ao imediatismo do Fogo, que ao pensamento lógico e sistemático dos elementos tradicionais de sua regência.

Além disto, gostaria de chamar a atenção sobre alguns sintomas sociais que nem sempre atribuiríamos a Mercúrio se seguíssemos mantendo a definição proverbial do planeta.

Afirma Paul Virilio em “Velocidad y política” (1977) que a velocidade é o fator decisivo da historia moderna. Rapidez que, no caso que nos ocupa, provoca uma comunicação assimétrica – a emissão de mensagens se acelera cada vez mais, frente a um receptor cujo cérebro carece de possibilidades concretas de se adequar ao ritmo imposto pelas emissões digitais.

A criança sai do útero e tem frente a seus olhos o mundo, porém separado da vivencia táctil e afetiva, habilitadoras à posterior sociabilidade. A ausência de processos de experiência abre um leque de conflitos.

Violência: a super estimulação, sem canais expressivos adequados, produz reações irascíveis frente à proximidade de outro corpo; o ato substitui a palavra.

Patologias: os denominados ADD (déficit de atenção) e ADHD (déficit de atenção com hiperatividade) estão se tornando uma verdadeira epidemia.  Como dado ilustrativo, nos Estados Unidos mais de 6.000.000 de estudantes estão medicados para uma síndrome que, mais que uma doença, parece ser uma tentativa de adaptação do organismo aos fluxos informáticos velozes e agressivos. Não disponho de uma estatística adequada, porém suspeito que a maioria dos pacientes apresente posições de Mercúrio em dignidade, incapacitados para elaborar e refletir a respeito do caudal de mensagens recebido a todo momento.

A medicação utilizada para estas perturbações da atenção é à base de metilfenidato, um estimulante do sistema nervoso central mais potente que a cafeína, porém mais leve que as anfetaminas. Anula a sensação de fome e cansaço, aumentando a capacidade de concentração.

Outras patologias contemporâneas, relacionadas com a sobrecarga e a saturação, são: síndrome do pânico, hiperexcitação, hipermobilidade e dislexia –incapacidade para ler uma folha seguindo um processo sequencial. Segundo os dados do Instituto de Psiquiatria do Kings College e da Universidade de Manchester, as síndromes de ansiedade e de depressão cresceram 70% entre os adolescentes.  Sintomas estes que são tratados geralmente com medicação antidepressiva (Prozac), niveladora da serotonina no organismo.

Toxicomania: o aumento de consumo de substancias ilegais, confluem no universo do Ritalin (medicação para a ADD), utilizado pelos adolescentes na forma inalada ou injetado, a cocaína, os estimulantes, os antidepressivos e os reguladores do humor. Substancias que, em conjunto, manifestam o esforço para responder a um mundo em cuja velocidade e estimulação o cérebro humano ainda não suporta.

Como epílogo, a nós astrólogos apresenta-se o enorme desafio de definir  Mercúrio em tempos de pós-modernidade. Careço de respostas, só tentei compartilhar com vocês algumas questões que o dia-a-dia nos convida a pensar.

Bibliografia:
El Testamento de la Astrología. Oskar Adler. 2003. Traducción Liliana Díaz.
Generación Post-Alfa. Franco Berardi. Tinta Limón Ediciones. Buenos Aires, Argentina. 2007.
Posmodernidad? Esther Díaz y otros autores. Editorial Biblos. Buenos Aires, Argentina. 1988.

branco

Rio de Janeiro, 28 de Agosto de 2008.

É proibida a reprodução total ou parcial deste texto.