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Urano, Netuno e o Espírito dos Tempos

Silvia Ceres (Argentina) em 2 de julho de 2009

(Palestra no XI Simpósio do SINARJ – 27 e 28 de junho de 2009)

Os sete planetas tradicionais esboçam habitualmente o perfil individual de cada sujeito. Definem seu caráter e descrevem a imanência humana. Constituem a subjetividade de percepção de uma determinada realidade, de um tempo e um espaço onde se desdobra a vida.

Os planetas transaturninos, pelo contrário, podem ser definidos como transcendentes, isto é, vão além da realidade vivenciada a partir da experiência da consciência pessoal. Estabilizam o homem, possibilitando-o a transposição do limite de seu próprio ser. Costumam ser definidos como geracionais, pois a geração inclui o sujeito em um todo maior.

Particularmente Urano e Netuno oferecem um cenário, uma cortina de fundo da época, que podemos denominar filosofia de vida ou espírito dos tempos, sendo finalmente o que outorga traços próprios e coesão a uma determinada geração.

A expressão “o espírito do tempo” (Zeitgeist) provém dos românticos alemães e Hegel a incorporou a sua teoria sobre a filosofia da história. Sua origem sucede do latim (gênios seculi ou gênio do século) e denota o clima intelectual e cultural de uma época.

No campo prático da interpretação de um mapa, o astrólogo costuma alternar entre interpretá-los como traços de caráter–correndo o risco de atribuir significados próprios do centenário tradicional, ou como fatores geracionais, independentes do sujeito.

O trabalho presente tem como objetivo incluí-los na interpretação demarcando um campo diferenciado, articulando o pessoal com a filosofia de vida de um determinado período.

A dobradinha individual-generacional abre várias opções possíveis:

– O indivíduo pode ser um notável porta-voz que o leva a desenvolver uma ação fora de seus próprios limites. É o caso de Rosa Luxemburgo que explicarei mais adiante.

– O indivíduo de forte personalidade que não pode se conectar facilmente com sua época ficando como um estranho a seu próprio tempo. É o caso de tantos artistas incompreendidos por seus contemporâneos.

– O indivíduo que se sente forçado a mover-se em um entorno cujos códigos desconhece e sofre, pois sua personalidade não lhe facilita mover-se com autonomia. Se sente obrigado a amoldar-se para se adequar a uma corrente que o arrasta. É, talvez, o caso mais frequente.

URANO E NETUNO

Urano é um planeta de função egóica, consolida o self pois permite refletir e compreender as condutas do eu. Reconhece os limites, a própria finitude de sua condição humana, se responsabiliza por sua vida (Saturno) e posteriormente, dono de sua maturidade individual, atravessa a fronteira de sua individualidade com o objetivo de se diferenciar e isolar do homem massificado para seguir seu próprio roteiro de conhecimento.

Urano coloca em outro plano o conhecimento de si, habilitando a reflexão de um intenso “aqui”, onde o homem não somente pode expandir seu campo de ação no sentido horizontal de conquista do espaço, mas também pode subir na linha de um tempo presente de maior consciência.

Caminho que se inicia com uma marcada sensação de desconforto e desassossego e que implica o risco de ficar deslumbrado com sua própria luz interior – complexo luciferiano- em uma atitude de superioridade depreciativa ante um próximo carente da individualidade que ele obteve.

Netuno, pelo contrário, é um planeta cosmológico que oferece a capacidade de se perceber como parte integrante de um todo maior – Deus, natureza, humanidade-. Nos oferece a imagem do homem como negativo da fotografia do universo. É a capacidade de se ver desde fora, através dos olhos do cosmos.

Assim integra o indivíduo, relaxa-o e o redime de sua solidão metafísica. Solidão consequente da Queda e da expulsão do casal primitivo Adão e Eva do Paraíso.

Netuno permite a conexão com um “além da gente mesmo“, não isento de riscos: submergir-nos em um mundo ilusório, onírico, carente de limites, semelhante ao estado intrauterino. Funciona como uma porosidade rudimentar que nos impede de diferenciar os estímulos exteriores das vivencias interiores.

Assim como o risco de Urano é despertar todo o egoísmo, o de Netuno é apagar toda barreira de controle. Só quando atravessamos o ensino de Urano solidificando o eu, é possível escapar ao perigo da dissolução.

“Conhece-te ti mesmo e conhecerá a Deus” é a mensagem de Urano. “Conhece Deus e te conhecerá ti mesmo” é a mensagem de Netuno.

A tensão entre a vivencia do aqui profundamente individual (Urano) e do além metafísico (Netuno) constitui a filosofia de vida de um determinado momento do tempo. Consciente ou não, ninguém vive fora desta filosofia.

Urano isola o homem, Netuno dissolve o isolamento. Através de Urano o homem se retira para dentro de seu self (aqui, centro de gravidade, microcosmos). Através de Netuno ele se abre ao conjunto (mais além, o centro de gravidade é o todo, macrocosmos).

É importante, então, analisar a relação entre ambos por sua posição zodiacal, independente de possuírem um aspecto formal.

Já que Netuno tem uma órbita maior que Urano, poderíamos pensar que o primeiro marca a hora e o segundo os minutos do grande relógio cósmico que assinala o espírito do tempo.

Uma vez que a permanência de Urano em cada signo é de 7 anos e a de Netuno de 14 anos, existem 2 formas de definir o “aqui” – e às vezes 3- por cada definição de “além”.

O “AQUI” E O “ALÉM” CONTEMPORÂNEOS

Netuno transita pelo signo de Aquário desde fevereiro de 1998 e aí segue até abril de 2012. Durante esse tempo, Urano desdobrou sua ação através de Aquário; em março de 2003 ingressou em Peixes; em março de 2010 entrará em Áries, para então retroceder a Peixes –julho 2010-, até que em março de 2011 ingressará definitivamente em Áries.

Em síntese, enquanto aparece um “além” dominado pela presença de Netuno em Aquário, surgem três maneiras de vivenciar o “aqui” –Urano em Aquário, em Peixes e em Áries- marcando as características da época.

Netuno em Aquário define um cenário caracterizado pela valorização do conhecimento (Ar) como sinônimo de poder (Fixo). Critério que gera uma explosão nas ofertas de informação, de pós-graduação universitária, de propostas de aprendizagem contínua, motivado pelo desejo de obter melhor posição social.

As empresas oferecem cursos de capacitação para seus executivos e os políticos dirigem suas decisões a base de pesquisas. Enquanto isso, os textos de autoajuda enchem as prateleiras das livrarias, prometendo ao leitor a possibilidade de modelar sua vida de maneira original e pessoal.

A máxima “O conhecimento é poder” é acompanhada por uma profunda crença metafísica no solipsismo –do latim “solus ipse”, somente eu existo- que nos oferece uma única certeza: a existência de nossa própria subjetividade. De maneira tal que a realidade –objetos, pessoas- são percebidas como emanações da própria mente. A realidade como tal é incognoscível, e talvez só seja a manifestação de diferentes estados mentais do eu.

Urano em Aquário nos convida a que nos experimentemos como seres únicos, instalando um conflito entre o individual e a comunidade, dois termos aos quais Aquário não pode renunciar. Na necessidade de incluir ambas as expressões em sua vida, tenta rodear-se de “outros“, mas não estar com eles, conformando um conjunto de solitários na multidão.

A imagem paradigmática desta configuração é a boate, onde se aglutina um grande número de pessoas dançando sozinhas. Ou os meios de transporte, onde cada um vai escutando sua própria música entre a multidão. Ou as muitas possibilidades que brinda a Internet de fazer amigos, de trocar opiniões, de dialogar, sentados sozinhos em frente ao PC.

Quando Urano ingressou em Peixes, a sociedade mudou para uma concepção niilista sobre a inutilidade de qualquer esforço, em uma resignação sem objetivos nem metas de transformação.

Representa bem as características desta configuração a crise econômica atual –frente à qual nem o cidadão comum nem os especialistas parecem entender o que está acontecendo nem para onde vamos- mas sentimos claramente que as soluções estão além das possibilidades de cada um de nós.

Assim, dia a dia olhamos inertes os informe de altas e baixas das Bolsas, os dados de milhares de desempregados no mundo inteiro, as cifra estratosféricas investidas para salvar os bancos. Como temerosos e dóceis passageiros embarcados em uma travessia por um mar tumultuoso, só esperamos atracar logo em um porto protetor e seguro. Nem sequer tentamos conhecer -na certeza que nada podemos fazer- qual é o rumo, quem tripula o navio e o prognóstico do tempo.

Quando Urano ingresse em Áries nos enfocaremos em uma devoção do poder, independentemente da meta. A urgência de liberdade será a direção da vontade.

Somente em 2012, quando Netuno transitar por Peixes provavelmente nos voltaremos para a busca de fraternidade, com a certeza de que a vida do próximo também é a minha.

ROSA LUXEMBURGO, PORTA-VOZ DE SEU TEMPO

Rozalia –Róza- Luksemburg nasceu em 5 de março de 1870, às 11:26:50 horas (GMT), em Zamosc, Polônia.

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Era a menor de cinco filhos de uma família de judeus laicos embora respeitosos das festividades. Lina –sua mãe- descendia de 17 gerações de rabinos e eruditos. Seu pai pertencia a uma família de comerciantes.

Em 1873, seus pais decidiram mudar a residência familiar a Varsovia, devido a dificuldades econômicas e ao ambiente opressivo de uma comunidade marcadamente religiosa.

Aos cinco anos sofreu uma dolorosa enfermidade no quadril que a deixou prostrada um ano de cama e cuja sequela foi uma perna visivelmente mais curta.

No outono de 1880 ingressou no Ginásio – escola secundária russa- onde se sobressaiu por ser uma aluna modelo. Mas não foi fácil sua vida escolar, Rosa se sentiu segregada por suas companheiras devido a sua condição de judia, polonesa e manca.

Em dezembro de 1881 padeceu pela primeira vez um progrom, vivenciando uma intensa debilidade e falta de defesas, compensada posteriormente com uma aparente arrogância, segurança e certa agressividade que esculpiu nela um rosto severo e obstinado.

A adolescência a distanciou das preocupações da vida burguesa de seus pais e da cultura judia.

Somente aos 16 anos começou a encontrar interlocutores e pares entre os estudantes dos círculos políticos. Nessa época escreveu a uma amiga: “…meu sonho é um sistema social que nos permita amar a todos com a consciência em paz”.

Aos 17 anos se graduou com notas destacáveis. Um ano depois se incorporou a um grupo que aspirava organizar um partido trabalhador.

Ainda sem ter 19 anos completos chegou a Suíça, decidida a estudar Zoologia.

Aos 20 anos conheceu Leo Jogiches, quem seria por muito tempo seu companheiro sentimental e de militância política. Pouco depois trocou a biologia pelo direito, a economia e a filosofia.

Até este ponto, a biografia de Rosa poderia ser compreendida pela análise da configuração dos sete planetas tradicionais. Mas o ponto central de nossa análise será a posição de Netuno em Áries conjunto a sua Lua –regente do Ascendente- e a quadratura que ambos recebem de Urano em Câncer, configuração que a converte em emissária do espírito de seu tempo, ainda que as custas de sua vida pessoal.

Iniciemos a análise definindo a Lua em Áries, pois ela conecta a filosofia de sua geração –Urano/Netuno- a sua individualidade –regente do Ascendente-. Este luminar no signo do “guerreiro” denota uma extroversão da vontade, a intenção de superar todos os obstáculos, preferindo morrer a se submeter. Hostil com a apatia, é um marcador de caminhos para ele e os outros, ao que só lhe interessa a meta ideal. Procura estabelecer novos enfrentamentos, levando uma fé indestrutível em sua missão e fascinando-se frente à provocação e ao desafio.

O astrólogo Oskar Adler definiu ao grupo humano assinado por Netuno em Áries e Urano em Câncer, como uma geração que não encontra uma dissonância entre o desejo e a realidade, pois estão convencidos do direito a existir conforme a sua vontade. A notável sensibilidade para captar o sofrimento –próprio e alheio- os habilita a tentar pôr em prática seus próprios ideais.

Caracteriza-os a tendência a bloquear a dor apelando a um intenso desfrute da vida, evitando as ataduras emocionais subjetivas. A existência possui mérito e valor em si mesmo, carecendo da necessidade de analisar ou justificar o porque e o para que a conduta humana. A alegria e a plenitude se tornam significados vitais suficientes.

Feita a síntese da filosofia de vida da geração de Rosa Vermelha –como a chamou um jovem Bertold Brecht em um poema dedicado a ela- prossigamos com a biografia desta mulher, emissário e símbolo de seu tempo.

Em 1893 deu seu primeiro discurso público, fascinando o auditório (Mercúrio sextil Lua / Netuno). Sua atividade política começou a adquirir importantes proporções em sua vida. Não obstante, aos 27 anos se doutorou em Direito e Ciências Políticas.

Nessa época escreveu: “A quem serve, na verdade, a revolução? (…) Se os revolucionários não são humanos, se não entendem a arte de viver como podem criar uma vida melhor para outros?”

Em 1898 se radicou em Berlim. De lá escreveu a Leo: “Apesar de tudo o que você me disse antes de partir eu me aferro como sempre ao meu direito à felicidade pessoal. Sim, é certo, tenho um imperdoável desejo de felicidade pessoal e estou disposta a brigar por minha porção diária com a teimosia de uma mula”.

Sua atividade política seguiu em ascensão: viajava, dava conferências. Berlim lhe ofereceu fama e prestígio, mas ela começou a sentir os primeiros sintomas de depressão. Nessa época escreveu: “Sei que não farei uma décima parte do que deveria fazer. A insatisfação comigo mesma é meu estado psicológico permanente, o remorso por não ter feito isto ou aquilo me corroe dia a dia. O sentimento de culpa não me abandona nem um instante”.

A atividade se tornou vertiginosa: ela age, convoca reuniões (1500/2000 participantes), dá discursos de duas horas e depois dialoga com o auditório, se reúne com dirigentes, publica livros, é chefe de redação do jornal socialista alemão.

Em 1904 concorreu como delegada ao Congresso da 2ª Internacional em Ámsterdam, onde teve uma participação destacável. Nesse mesmo ano foi presa por insultar publicamente o imperador Guillermo II.

Em seu empenho por encontrar a “verdadeira vida”, a “vida real” escreveu: “A vida brinca constantemente de pique-esconde comigo. Sempre penso que ela não está dentro de mim, não está onde eu estou, mas sim em algum lugar longínquo”.

No final de 1905 voltou para Varsovia clandestinamente. Lá se dedicou a escrever febrilmente, até que poucos meses depois foi localizada pela polícia em seu quarto de hotel e foi encarcerada.

Seu ânimo se manteve em alta, mas a anemia, os problemas hepáticos e digestivos, subtraíram-lhe vitalidade. Enquanto se restabelecia, escreveu: “A revolução é esplêndida, todo o resto é lixo”.

Em 1906, retornou ao Berlim. Daí em diante sua vida pública será um turbilhão de atividades: escreveu artigos, publicou livros, encabeçou manifestações, enfrentou-se com seus velhos camaradas, discutiu acaloradamente com Lenin –com quem, entretanto, sempre manteve uma relação de respeito mútuo- por divergir do critério da luta armada do povo para subir ao poder, dirigiu grupos políticos, se opôs à guerra e aos nacionalismos. Esta atividade febril foi interrompida por sucessivos períodos passados na prisão.

Quanto a sua vida privada, vivia em estado de amor constante com diferentes amantes, lia em cinco idiomas, visitava o teatro e a opera, dedicando-se à jardinagem, a pintura e a escrever poemas.

Uma vida assinada pela leitura adolescente do poeta romântico polonês Adam Mickiewicz, quem a inspirou para conceber a ideia da dimensão ética da mudança social e da espontaneidade da revolução.

Vida truncada na noite de 15 de janeiro de 1919 – aos 48 anos-, quando foi detida e golpeada a caminho da prisão. Um tenente negro lhe disparou na cabeça, seu corpo foi jogado em um canal de onde foi resgatado meses depois.

Em todos os aniversários de sua morte sua tumba aparece coberta de cravos vermelhos que muitas mãos anônimas depositam como comemoração póstuma a esta lutadora da existência. Como cenário de fundo, a neve cobrindo a terra do cemitério berlinense. Vermelho e branco, paixão e pureza assinando a lembrança de Rosa, a moça que abandonou família, país e lar urgida por viver uma vida mais completa, dedicada à missão de fazer a existência humana mais plena e digna de ser vivida.

Provavelmente muitos dos cravos vermelhos são depositados por membros da geração que 84 anos depois nasceu com Urano em Câncer, marcando um “aqui” assinado pela sensibilidade empática com a dor do próximo, só que acompanhado por Netuno em Libra, assinalando a busca de um “além” de liberdade absoluta de pensamento e não de ato, como assinou aquela geração de Netuno no Áries.

silviaceres@gente-de-astrologia.com.ar

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Rio de Janeiro, 02 de Julho de 2009

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