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Entrevista a Richard TARNAS

Victor M. Amela entrevista Richard Tarnas em 26 de março de 2009

(Cedido por Silvia Ceres do site www.gente-de-astrologia.com.ar)
Richard Tarnas autor de Cosmo e Psique

A tradução do livro “Cosmo e Psique” produziu uma série de comentários nos periódicos espanhóis. Decidimos divulgar algumas repercussões que o texto teve na imprensa espanhola por considerá-lo extremamente importante para o meio astrológico.

Agradecemos ao colega Gabriel Gutiérrez, pela gentileza de nos fazer chegar este material.

Tudo respira em uníssono

Desde a publicação, em 1991, do livro “A Paixão da Mente Ocidental (publicado no Brasil pela Bertrand), Richard Tarnas é lido e discutido no círculo anglo-saxão. A editora espanhola Atalanta , publicou Cosmos e Psique, extenso livro que documenta a cartesiana cisão do cosmos, utilizada para isolar a Astrologia. Mas nos dias de hoje alguns voltam a intuir que não há uma psique dentro e um cosmos fora, há uma dinâmica integrada que a Astrologia pode traçar em seus mapas.

“Para mim, por hora, basta-me ver a astrologia como prova da fértil imaginação de nossa psique, insaciável leitora do cosmos…”

“Mas também é certo que nossa imaginação é a eclosão do muito imaginativo do cosmos..”.

Depois de amanhã faço 58 anos. Nasci em Genebra e vivo na Califórnia. Sou doutor em Filosofia e Psicologia por Harvard. Sou casado e tenho dois filhos, de 33 e 20 anos. Sou progressista liberal.

Tenho um sentido profundo do divino, que descubro desdobrando-se na psique, no cosmos”.

Os astros Influem em minha vida?

Você e eles estão conectados.

E determinam o que faço?

Não é isso. Verá: que horas são?

Doze e meia…

E como soube disto?

Olhando aquele relógio.

E os ponteiros daquele relógio causam as doze e meia?

Não

Pois assim acontece com os astros: não causam nada, os ponteiros de relógio nos quais podemos ler as horas são os arquétipos do cosmos.

Mas uma coisa é o cosmos, e outra, eu.

Ah, aqui você expressa a paixão da mente ocidental que quis despender-se do cosmos até sentir-se autônoma e considerar o cosmos como um mecanismo externo e inanimado. Algo que é absolutamente irreal!

Por que?

Porque somos cosmos em forma humana! Nós somos o modo através do qual o cosmos se faz consciente de si mesmo. Eu gosto de como o formulou o filósofo Plotino (III d.C.):

“Tudo respira em uníssono”.

Mas Saturno é uma pedra bruta inanimada, enquanto que eu sou minha psique.

O que você chama “minha psique” não é mais do que a respiração do cosmos. Cosmos e psique são duas formulações de uma mesma e única realidade. E as conjunções dos astros viabilizam a dinâmica cósmica, quer dizer, a dinâmica arquetípica da psique. Isto é o que estuda a astrologia arquetípica.

Ela é muito diferente de outras astrologias?

Seu enfoque esta de acordo com os atuais enfoques da psicologia transpessoal, da física quântica, da teoria do caos e dos fractales, a ecologia e Gaia, a filosofia holística…

Há lugar para a liberdade pessoal?

É precisamente a visão participativa do homem no cosmos: cada um de nós é o cosmos atuando. Há uma dinâmica cósmica, uma melodia que cada um interpreta com um estilo. Veja o Hitler e o Chaplin.

O que acontece com Hitler e Chaplin?

Nasceram quase ao mesmo tempo e compartilharam aspectos de suas cartas natais, mas podemos ver como foram tão distintas as maneiras como os desenvolveram!

Em que eles se pareciam?

Ambos tinham dificuldades com a autoridade, tendências tirânicas, potenciais para as artes, atração por jovens emocionalmente imaturos, e grande capacidade de comunicação.

Fale-me de uma dinâmica cósmica: como funciona, com que mecânica?

É um mistério! A ciência não alcança isto.

Para que serve a astrologia arquetípica?

Para intuir a dinâmica profunda das coisas, como o bom surfista intui a dinâmica das ondas: compreender o passado e o presente ajuda a surfar melhor na onda do futuro.

Desde quando há astrólogos?

Sempre, são observações antiqüíssimas. Antes de ser açoitado por sustentar que a Terra orbitava ao redor do Sol, Galileu tinha sido açoitado por ser astrólogo!

Eu não sabia disso…

À Igreja se assustou com as precisas predições de Galileu: onde ficava a vontade divina se tudo estava nos astros?

Houve outras mentes eminentes interessadas na astrologia?

Platão, Aristóteles, Dante, Goethe, Yeats, Jung, Kepler.! A curiosidade de Newton pela astrologia o conduziu à matemática. Nos momentos mais criativos do Ocidente a astrologia sempre aflora.

Como você chegou à astrologia?

Durante umas indagações psicológicas junto com o Stanislav Grof nos assombrou a constatação de como cartas astrais indicavam episódios de transformação psíquica. Então decidi estudá-la, sem considerar o incômodo que isto causa, como fizeram os que vituperaram contra Copérnico…

Que evidências o fascinaram mais?

Tantas… Impressiona-me a correlação entre as configurações planetárias e a era axial.

O que é a era axial?

Os séculos VI e V a.C. são assim denominados em função da formidável eclosão vivida pela humanidade: Sócrates, Buda, Confúcio, Pitágoras, Lao Tse, Zoroastro, jainismo, os profetas hebreus… Não há um período histórico igual!

E o que nos dizem os astros a respeito daquilo?

Urano, Netuno e Plutão estavam alinhados de modo quase perfeito. Observei que os alinhamentos entre dois destes três planetas correspondem sempre a revoluções de consciência. Os três de uma vez…

E como andam agora estes planetas?

Plutão e Urano se alinham, o que assinala inovações criativas e culturais.

Possivelmente como esta que postula você?

As mudanças de paradigma não são de um dia para outro, vão impregnando as consciências… Copérnico fazia esta mesma reflexão a respeito de seu revolucionário giro.

O ano de 2012 será apocalíptico, dizem…

Pode acontecer algo que venha colorir o processo de transformações no qual já nos encontramos, como antes escolhermos o ano de 1789 para simbolizar aquele extenso processo revolucionário.

Que devo esperar dos horóscopos da imprensa?

Só entretenimento. Eles focalizam o Sol no momento do nascimento: isto equivale a querer abranger o estado integral de nosso organismo observando apenas o coração.

Tem sentido dizer: “Sou Libra”?

É como se você dissesse “sou jornalista”: isto não expressa à complexidade da sua pessoa.

Somos leitores do cosmos: a astrologia é uma leitura, e ler é criar. Sim?

Ficou bonito, mas não entenda o cosmos como uma projeção mental: o desenvolvimento da consciência é o desenvolvimento do processo de auto-revelação do cosmos.

VANGUARDA, 19 de fevereiro de 2008.

O filósofo Richard TARNAS

Há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas”

A física quântica mostrou que o edifício da razão tinha gretas”

Os planetas estavam alinhados da mesma maneira no dia em que Jimi Hendrix arrasou ante as multidões com sua forma heterodoxa de tocar o violão e o dia em que Viena se rendeu aos pés de Beethoven pela profundidade de seus concertos de piano. Explica-o Richard Tarnas, professor de filosofia e psicologia na Califórnia, formado em Harvard e doutorado pelo Instituto Saybrook. Certamente, um tipo pouco habitual no mundo acadêmico.

Em “Cosmos e Psique” o que Tarnas defende é que tudo está relacionado e que há uma íntima conexão entre o microscópico e o macroscópico, entre as coisas das criaturas humanas e a marcha dos planetas, e insiste em assinalar a extrema complexidade do mundo e a pluralidade das perspectivas através das quais pode ser analisado. O livro acaba de sair pela Atalanta (em espanhol), editorial Jacobo Siruela que o pôs em marcha deixando para trás o selo que leva seu nome. Como já fez antes, Jacobo está aberto ao desafio de propostas pouco convencionais nas quais a razão faz conexão com outros saberes.

Tarnas considera que nos tempos atuais reina uma profunda insatisfação e os homens não encontram uma maneira coerente para explicar as grandes questões.

“O reinado da razão foi avassalador, e foram tantos os lucros tecnológicos que propiciou que parecia que se impunha um progresso irreversível”, explica.

Logo vieram os excessos e hoje parece claro que isto foi muito longe. Aí estão as crises ecológicas e a ameaça cada vez mais real de que a Terra tem os dias contados”.

Nos anos setenta, na Califórnia: a contracultura questionou os valores sagrados e os jovens se abriram a novas experiências.

Tarnas viveu aqueles dias e confessa que só pôde embarcar neste projeto por ensinar em uma área na qual existem menos prejuízos acadêmicos.

“A própria filosofia, a literatura e a física quântica já revelaram que o edifício da razão tinha fendas. Depois de Freud, Jung descobriu a riqueza dos arquétipos para explicar alguns conflitos psicológicos. Aí havia um caminho a percorrer”. E nesse caminho ele descobriu a astrologia.

“O primeiro surpreso fui eu”, diz, “quando comecei a comprovar que existiam muitos paralelismos entre as cartas natais das grandes figuras e que havia também uma relação entre a posição dos planetas e o momento no qual, por exemplo, Galileu, Darwin e Einstein realizaram seus descobrimentos mais revolucionários”.

Em “Cosmos e Psique”, Tarnas propõe um percurso atípico pela história, pelas obras dos grandes professores, pelas crises e as guerras e pelos momentos de esplendor. A chave mestra que o guia é a astrologia e constata que “há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas”. Não fala nunca de uma relação causal, não pretende estabelecer que um mundo determina o que acontece no outro. “Só proponho uma maneira distinta de ver as coisas que nos permita nos reconciliar com a natureza”.

O PAÍS, 19 de março de 2008

E se o cosmos, tivesse sentido? E se a idéia de que a existência humana transcorre sobre um fundo cósmico frio e inerte fosse uma miragem moderna? E se o universo impessoal de Kafka e Beckett, Dawkins e Dennet fossem uma projeção do século XX?

Perguntas como estas aguçaram a imaginação e a investigação do Richard Tarnas dos anos setenta, e após trinta anos de trabalho deram como fruto Cosmos e Psique, um audaz e detalhado ensaio no qual convivem psicologia, astronomia e história cultural.

Norte-americano nascido em Genebra (1950), Richard Tarnas estudou em Harvard, trabalhou durante anos no Esalen (Pico californiano do crescimento pessoal) e fundou em São Francisco um popular programa universitário sobre Filosofia, Cosmologia e Consciência. Em 1991 deu-se a conhecer com uma excelente historia do pensamento ocidental, “A Epopéia do Pensamento Ocidental” (publicado pela Bertrand Brasil), notável porque integra em um mesmo relato os diferentes sulcos da cultura (filosofia e literatura, religião, arte e ciência) e porque consegue converter vinte e cinco séculos de aventura intelectual não em mera soma de acontecimentos desconexos, mas em uma trama orgânica e fascinante, e com o devido rigor para que sirva perfeitamente como livro de texto e de consulta.

Este livro (que será também publicado pela Atalanta da Espanha), entretanto, era apenas o prelúdio da verdadeira investigação que Tarnas desenvolvia.

Ter múltiplas facetas a nível pessoal e profissional é parte da vida pós-moderna”, respondeu Mill Valley, nos subúrbios de São Francisco, quando lhe perguntei por esse trabalho como incógnito.

“Cosmos e Psique” começa com uma lúcida análise da cultura contemporânea e, em especial, do profundo sentido de alienação que afeta o eu moderno, isolado em um universo sem sentido e sentindo-se separado do resto da natureza e do cosmos. “Nossas aspirações mais profundas estão em contradição com o cosmos que nos mostrou a mente moderna; nossa cosmologia contradiz a nossa psicologia e nossa literatura.”

Segundo Tarnas, a falta de sentido da visão contemporânea do mundo “criou um vazio no qual o mercado, o consumo e a hiperatividade colonizam e empobrecem a imaginação humana”.

Esta primeira parte de “Cosmos e Psique” vale por si só, como uma pequena jóia da filosofia da cultura. A partir de sua própria fascinação pela história e pelo cosmos (sempre há sentido, como Kant, verdadeiro assombro ante “a beleza do céu estrelado”), Tarnas começou a comparar possíveis ressonâncias entre o microcosmo humano e o universo, em uma espécie de astropsicologia que, longe de ser ingênua e pré-moderna, integra intuições chave da psicologia, da ciência e da filosofia contemporâneas.

O grosso de “Cosmos e Psique” traça inúmeros percursos pela história cultural da Europa e América do Norte, com uma ênfase especial na história da ciência (de Copérnico e Galileu a Planck e Einstein), a filosofia (de Descartes e Rousseau a Schopenhauer e Nietzsche) e a literatura (de Shakespeare e Blake a Melville e Salinger).

Tarnas detecta épocas e momentos com um Zeitgeist semelhante (assim a Revolução Francesa e os anos sessenta do século XX), analisa-os à luz da psicologia arquetípica de James Hillman e (aqui está a surpresa) argumenta como determinados tipos de clima cultural, psicológico e político (segundo dados históricos que ninguém questiona) tendem a manifestar-se em sintonia com determinadas configurações astronômicas (segundo dados da Nasa).

Apesar de Tarnas nunca mencionar os signos do zodíaco, seu trabalho vai de encontro com a tradição astrológica em dimensão intelectualmente sofisticada e culturalmente pós-moderna. Não se sabe como as decisões chave de numerosos personagens públicos (e de algumas das melhores agencias literárias) apóiam-se em dita prática inominável, por mais que seja incompatível com a visão moderna do mundo e freqüentemente ganhou impulso em sua imagem de ingenuidade e falta de rigor, como assinala o próprio Tarnas, que longe de qualquer posição determinista defende um cosmos aberto, criativo e participativo. “O modo pelo qual cada geração enfrenta uma determinada provocação cultural ou sócio-política transforma o modo como as energias arquetípicas semelhantes se apresentarão à geração seguinte.”

Algo há em “Cosmos e Psique” da meticulosidade erudita e das conclusões inauditas dos melhores ensaios de Borges (com sua corrente de datas, citações e dados que parecem tirados da Biblioteca de Babel). Para surpresa do próprio Tarnas seu livro já está sendo usado como livro de referência nas universidades norte-americanas.

Talvez as profundezas da Psique e as profundezas do cosmos estejam menos distantes do que pensamos.

A epopéia do pensamento ocidental/ Cosmos e Psique

Richard Tarnas
Tradução de Marco Aurelio Galmarini
Atalanta. Girona, 2008.
Por Isidoro Calha

“Magnífico, sensacional, iluminador, revelador, necessário”. “Me encantou, me prendeu, me surpreendeu, me ensinou”. Estas são expressões de leitores do livro “A Epopéia do Pensamento Ocidental”, de Richard Tarnas, na internet. E é assim: um livro brilhante, sábio, perspicaz, fácil e cuja leitura conquista, de uma prosa tão clara como seu esplendor literário. Em 1991 quando saiu nos Estados Unidos, vendeu mais de 200.000 exemplares e já é texto base em quase uma centena de universidades americanas e européias. É preciso agradecer pelo fato da Atalanta tê-lo editado em castelhano, por fim, bem como a segunda obra, a capital de Tarnas, culminação desta, fruto de trinta anos de trabalho, “Cosmos e Psique”, de 2006. Tarnas terá que ser introduzido, junto com o Sloterdijk, no contexto crítico da discussão cultural e universitária espanhola. (Inclusive, como ponto de iniciação para feitos surpreendentes que demandam uma explicação maior que a cientista-racional, já contada em dúzia, por Patrick Harpur).

O futuro possivelmente está neles. Tarnas e Sloterdijk, pelo menos, são dois acadêmicos de máximo relevo, que não podem ser suspeitos de veleidades místicas por ninguém. A introdução editorial dos três em nosso idioma é devida ao editor Jacobo Siruela, com seu trabalho calado e delicioso, e com sua sensibilidade cultural avançada.

Em 600 páginas, “A Epopéia do Pensamento Ocidental’ percorre toda a história do pensamento do Ocidente, dos gregos aos dias atuais. Mostrando como a evolução da mentalidade ocidental sempre foi impelida por um impulso heróico, sua paixão, para forjar uma identidade humana racional e autônoma, separando-a de sua unidade primitiva com a natureza. Mas nem os gregos o entenderam assim, nem as novas correntes pós-modernas o entendem assim. O logo, a razão, era antigamente a fonte transcendente de todos os arquétipos (essências primitivas, fossem formas matemática, opostos cósmicos, idéias, deidades imortais, archai sacralizados, personificações míticas), em função dos quais, como expressão ordenada deles, a cosmovisão grega interpretava o cosmos. Esse logo universal operava simultaneamente no seio da mente humana e do mundo natural. Não havia dualismos de mente e mundo, interior e exterior, tudo pertencia a uma mesma razão Arquetípica do universo, que se refletia na mente humana, infundindo a capacidade para reconhecer a ordem cósmica.

Dizendo de outro modo: a natureza penetrava em tudo e a mente humana não era outra coisa senão uma expressão do ser essencial da natureza. (Isso sim é uma globalização de verdade).

A mente ocidental brigou durante séculos, com paixão, e por isso acreditava nas luzes, sua independência, forjou o eu autônomo individual, a posição epistemológica cartesiana – kantiana, que foi o paradigma dominante do pensamento moderno. Mas agora volta a reunir-se com o fundamento de seu ser, diz Tarnas, apelando para uma perspectiva epistemológica mais refinada: os princípios subjetivos que determinam nosso conhecimento do mundo não pertencem ao sujeito humano isolado, são na realidade a expressão do ser no próprio mundo. A realidade não é nem fenomênica nem objetiva, nem interior nem exterior, é o próprio ser do pensar humano. O a priori é nossa integração ao cosmos. Quase ao mesmo tempo em que a Ilustração chegava a seu clímax filosófico com Kant, começava a surgir uma perspectiva epistemológica completamente distinta, perceptível primeiro em Goethe com seu estudo das formas naturais, desenvolvida em novas direções pelo Schiller, Schelling, Coleridge e Hegel, e exposta sistematicamente no século passado por Rudolf Steiner, diz Tarnas. À psicologia profunda de Freud e Jung tocou, por fim, o destino e o encargo de mediar o acesso da mente moderna às forças e realidades arquetípicas, dissolvendo, com isso, a cosmovisão dualista e voltando a conectar o eu com o mundo.

Platão, que foi o teórico e defensor mais eminente daquela “peculiaridade assombrosa” com a qual o mundo grego interpretou o cosmos mediante intuições arquetípicas, recomendou o estudo dos astros como particularmente importante para a aquisição da sabedoria neste sentido. Isso exerceu uma influência decisiva na evolução da cosmovisão ocidental e possivelmente foi o fator mais importante, tanto pelo dinamismo como pela continuidade que deu a este esforço para compreender o cosmos físico. O “mistério dos planetas”, como o chamava Platão, a larga e árdua luta por desvelá-lo culminaria dois mil anos depois com as obras de Copérnico e Kepler e com a revolução científica que eles iniciaram.

Nesse mistério e nessa luta se inclui Tarnas com seu segundo livro, “Cosmos e Psique”, sua ópera magna, de qualidades semelhantes à primeira, que aborda a crise do eu e a cosmovisão moderna, e quer introduzir um corpus de evidências, um método de investigação e uma perspectiva cosmológica emergente que poderia ajudar a abordar a crise de hoje. Não é necessária uma visão profética para saber que estamos em um desses estranhos momentos da história, como o final da Antigüidade Clássica ou o começo da Idade Moderna, que através de grande tensão e luta iluminaram uma transformação verdadeiramente fundamental dos supostos princípios subjacentes (arquétipos) da visão do mundo. Contamos com recursos sem precedentes para abordar criativamente nossos problemas, diz Tarnas muito bem, mas é como se nos fosse negado o grande enigma do momento atual, entretanto, embora haja um contexto de alcance maior ou mais profundo para fazê-lo, é como se alguma força invisível nos negasse a capacidade e a decisão para fazê-lo.

Nos momentos mais criativos do Ocidente sempre aflora a astrologia: Platão, Aristóteles, Dante, Goethe, Yeats, Jung. Kepler! Ao próprio Newton ela conduziu à matemática. Ao Tarnas impressiona, sobre tudo, a correlação entre configurações planetárias e a era axial, como ele chama os séculos VI e V antes de Cristo, pela formidável eclosão que viveu a humanidade: Sócrates, Buda, Confucio, Pitágoras, Laot Tse, Zoroastro, jainismo índio, profetas hebreus. Na ocasião Urano, Netuno e Plutão estavam alinhados de modo quase perfeito. Os alinhamentos entre dois destes três planetas correspondem sempre as revoluções de consciência. Os três de uma vez… Agora se alinham Plutão e Urano.

Os astros não causam nada, são como ponteiros de um relógio no qual podemos ler as horas arquetípicas do cosmos. As cartas natais indicam episódios de transformação psíquica. Não há uma psique dentro e um cosmos fora, a não ser uma dinâmica integrada, para a qual a astrologia pode traçar cartas. Cosmos e psique são duas formulações de uma mesma e única realidade. (“Tudo respira em uníssono”, disse Plotino). Há uma dinâmica cósmica, uma melodia que cada eu reproduz com seu estilo. Como funciona essa dinâmica, é um mistério, até agora a ciência mais canônica não a alcança. Por isso o empenho de Tarnas. Como as conjunções dos astros dão visibilidade à dinâmica cósmica, ou a dinâmica arquetípica da psique, é o que estuda sua “astrologia arquetípica”, que concorda com os enfoques atuais da psicologia transpessoal, com a física quântica, a teoria do caos e dos fractales, a ecologia e a teoria da Gaia, a filosofia holística, todos os esforços, para encontrar uma teoria do campo unificado. A astrologia arquetípica serve para intuir o movimento profundo das coisas, como o bom surfista intui o das ondas, ajuda a surfar melhor na onda do futuro. Uma imagem chave a do surfe, também sloterdijkiana, possivelmente e a de uma nova mudança de paradigma. E, se, de verdade, o for?

Babelia. O PAÍS, 09 de agosto de 2008

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Rio de Janeiro, 26 de março de 2009

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