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Perspectivas Astrológicas para 2009

Jayme Carvalho em 10 de janeiro de 2009

(Apresentação no evento do SINARJ  de 10 de janeiro de 2009)

Nem os ciclos astrológicos, nem os econômicos respeitam o fatiamento do tempo em anos-calendário gregoriano, por isso eu vejo ano de 2009 como parte de um longuíssimo processo de desenvolvimento histórico, econômico, político, social e cultural que teve início há muito tempo atrás e cuja solução para os problemas fundamentais só seremos capazes de vislumbrar ao longo das próximas duas décadas.

A importância histórica de 2009 reside no fato de ser um ponto de inflexão no processo de desenvolvimento econômico mundial.

Para ilustrar essa tese, selecionei 3 configurações planetárias que maior relação possuem com a Economia: Saturno oposto a Urano, Plutão em Capricórnio e Saturno quadrado Plutão.

Começando pela primeira configuração:

Sabemos que Saturno oposto a Urano fala do embate entre o novo e o velho. Entre a mudança e o poder estabelecido. Entre a inovação e as regras e costumes vigentes.

Nós economistas aprendemos que, desde o surgimento do capitalismo industrial, a partir do século 18, ainovação se tornou o principal motor da dinâmica do crescimento econômico. Eu vou apresentar pra vocês o modelo de um economista de nome Kondratieff, que identificou a existência de ciclos de longo prazo, com uma duração em torno de 50 anos, como padrão de crescimento da economia mundial.

Ciclos de Kondratieff

pespectiva2009

Recessão americana de 1987

Este ciclo contém uma fase ascendente A e uma fase descendente B. Durante a fase A, observamos taxas de crescimento mais elevadas, entremeadas por recessões breves e pouco profundas. Já na fase B, as taxas de crescimento sempre caem a menos da metade das taxas observadas na fase anterior, com períodos recessivos mais prolongados e muito mais intensos.

(uma ressalva: as retas são na verdade riscos como em um cardiograma. Outra ressalva é que o desenho não significa que o nível de atividade vai cair durante esses 24 anos de fase B, mas somente que as taxas de crescimento são mais baixas)

Então do final do século 19 até 1918, ocorreu uma fase A deste ciclo de LP, que correspondeu à Belle Époquee ao boom econômico que antecedeu à Primeira Guerra Mundial. Ao final desse conflito, assistimos a reversão cíclica para fase B, um período longo de recessões e crises, tanto na Europa como nos Estados Unidos (como a hiperinflação na Alemanha no início dos anos 20 e a grande depressão mundial de 1930). Esta fase B só teve fim perto do final da Segunda Guerra Mundial, com um grande acerto entre os principais países do mundo reunidos nos bosques de Breton Woods, nos EUA, em 1944. Este acordo decidiu sobre a criação das principais instituições reguladoras do comércio internacional, como o FMI, o Banco Mundial e o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) que deu origem à OMC.

No pós-guerra, a nova organização e as regras recém estabelecidas criaram as condições necessárias para que o mundo entrasse em um novo período de rápido crescimento, portanto em uma nova fase A do Ciclo de LP, puxado principalmente pela indústria petroquímica e pela indústria aeronáutica, para só encontrar um novo ponto de reversão cíclica em meados dos anos 60. Durante esta nova fase B, iniciada em 1965, assistimos a crise do dólar (71), a primeira crise do petróleo (73), com a subsequente desaceleração do crescimento mundial, a segunda crise do petróleo (79), que resultou em uma profunda recessão americana no início dos anos 80 e um novo período recessivo em 87.

O ano de 1989 marca o início de uma nova fase A, quando o mundo assistiu a queda do muro de Berlim (89) e a dissolução da antiga União Soviética (91), a partir da Perestroika. O Consenso de Washington (89) pregou como receita a desregulamentação dos mercados, o fim das restrições aos investimentos diretos e ao comércio internacional, a redução dos gastos públicos e taxas de juros de mercado, e com isso lançou as bases para a nova fase ascendente do ciclo de LP, capitaneados, desta vez, pelos investimentos em tecnologia da informação e em microeletrônica.

Todos nós que nos encantamos, nos últimos 20 anos, com o aparecimento dos telefones celulares e dos Ipodse nos tornamos usuários da internet somos testemunhas deste boom. É este o ciclo que agora apresenta sinais de esgotamento.

Vale aqui um parêntesis: Nikolai Kondratieff (nascido na Rússia em 1892) publicou seu livro sobre os Ciclos de LP em 1925. Porém, suas ideias desagradaram ao Comitê Central do PC que preconizava a crise pela qual o mundo passava nos anos 20 como o colapso final do capitalismo. Kondratieff foi demitido do emprego público que ocupava em 1928, expulso do partido e preso em 1930 e executado a mando de Stalin em 1938, pois sua teoria demonstrava que o capitalismo não desapareceria na crise dos anos 20/30, mas ao contrário retomaria seu crescimento mais adiante. Como o fez.

Essas ideias chegaram ao Ocidente pelas mãos de Joseph Schumpeter, economista austríaco, cuja obra principal, Business Cycles, também descreve os ciclos econômicos. Kondratieff só escreveu até os anos 20, mas sua teoria de teve ainda importantes contribuições, que lhe deram sequencia, por parte de outros economistas, sempre em momentos de crise. É curioso ver como os economistas retiram das estantes os livros sobre ciclos econômicos assim que a crise se instala, em busca de uma luz no fim do túnel, mas se apressam em devolvê-los às mesmas estantes, tão logo o ciclo retome a espiral ascendente.

Kondratieff identificou como razões para as reversões cíclicas, tanto da baixa quanto da alta, a maior ou menor resistência do ambiente institucional/regulatório à adoção das inovações tecnológicas na economia. Ou seja, no início da fase A, a inovação encontra as condições maduras e propícias para ser adotada. Este é o momento em que as regras e o poder estabelecido caminham lado a lado, de braços dados, com a nova tecnologia; enquanto na reversão cíclica da fase A para a fase B, as mudanças se deparam com fortes resistências por parte tanto das instituições quanto da regulamentação vigente.

Levou algum tempo para que economistas/astrólogos se dessem conta de que o conflito entre o velho e o novo, entre a mudança e o poder estabelecido, entre a novidade e os costumes vigentes, ocorridos na reversão cíclica da fase A para a fase B, se tratava na verdade de um embate entre Saturno e Urano. E, quando superpostos, a correlação entre o ciclo de Kondratieff e o ciclo desenhado por esses planetas era espantosamente semelhante ou, para ser mais exato, quase idêntica.

No Brasil, essa constatação foi realizada pelo prof. da UFRJ, Carlos Renato Mota, que teve seu projeto de tese rejeitado pela universidade, nos anos 80, por não ter fundamento científico. Na Franca, Andre Barbault estudou essa mesma correlação e a publicou em seu livro de 1998. O Prof. Mota e o senhor Barbault nunca se corresponderam, portanto eu credito à sincronicidade essa deliciosa coincidência.

Resumo da ópera: a crise atual tem como causa fundamental a oposição Saturno Urano, que já sinalizava, desde sempre, para os anos de 2008-10, uma nova reversão do ciclo de LP. Plutão em Capricórnio é um adjetivo desta crise, porém um adjetivo e tanto!

Com isso chegamos ao nosso segundo movimento.

Ao olharmos para trás, observamos que Plutão entrou em Capricórnio pela última vez, em 1762/63, para só sair dele em 1778. Dois eventos políticos marcaram o início e o fim desta passagem: o fim da Guerra dos 7 Anos, em 1763, e a Independência dos EUA, em 1776.

A Guerra dos 7 Anos foi o primeiro conflito armado de proporções mundiais, com o envolvimento não somente da França e da Inglaterra, mas também da Rússia, da Prússia, da Áustria, da Espanha, da Suécia, entre outros. O Tratado de Paris, que selou o fim da Guerra, representou o fim da liderança da França e o início da hegemonia da Inglaterra na Europa e como maior potência colonial.

O que podemos esperar então a partir da atual passagem de Plutão em Capricórnio? Haverá um câmbio na atual liderança mundial? Se isto acontecer, provavelmente não teremos mais a hegemonia de um único país como antes, mas sim uma multipolarização dos centros de poder, em consonância com a Era de Aquário que se aproxima.

Por outro lado, a independência dos EUA ocorrida no final daquela passagem nos sugere que, com o retorno de Plutão à sua posição natal no mapa dos EUA, os americanos talvez sejam chamados a prestar contas quanto ao seu próprio poder econômico e quanto ao seu poderio no mundo, como uma correção de rota resultante desta revolução plutoniana no mapa dos EUA.

Mas nós sabemos que a tão temida quanto aguardada passagem de Plutão pelo signo de Capricórnio representa um passeio do deus da transformação pelo mundo material, transmutando o nosso modo de produzir as coisas, nossas relações de produção e a nossa relação com a matéria, ou seja, com a economia.

E o que aconteceu efetivamente nesta área na segunda metade do século 18? Ocorreu o que os economistas chamam de Revolução Industrial. Um período de fortíssimo crescimento econômico, a partir de um dinamismo jamais visto, em que a produtividade das empresas cresceu vertiginosamente como resultado das mudanças implantadas no modo de produzir, tornando os bens de consumo mais acessíveis a parcelas cada vez maiores da população e com uma qualidade muito superior à obtida com o modo de produção anterior. O caso emblemático dos tecidos.

E quais foram os dois pilares desta transformação? A substituição do trabalho manual pela produção mecanizada e a substituição da força animal por energia gerada por máquinas.

Antes da RI, o modo vigente de produção era o sistema de putting-out, no qual o comerciante fornecia matéria-prima, a lã, para os artesãos que a fiavam e teciam com suas rocas de fiar e seus teares manuais, em suas próprias casas. Naquele momento, o trabalhador realizava todas as etapas do processo de produção. Entretanto, a qualidade do produto final dependia muito da habilidade manual dos artesãos, e o ritmo de trabalho seguia a disposição de cada um desses trabalhadores.

Após a RI, os trabalhadores se tornaram meros fornecedores de mão de obra em troca de salários baixos, ocupando-se de somente uma única etapa do processo produtivo, não mais ditado por sua criatividade e destreza, mas sim pela velocidade e eficiência das novas máquinas de propriedade do novo patrão capitalista. Um processo com perdas e ganhos ou, como nós dizemos na astrologia, com luz e sombra.

Do lado energético, o que fazia mover as coisas até então era a força dos animais e, em alguns casos, a roda d’água (que dependia da vazão dos rios) e os moinhos de vento (que permaneciam parados em momentos de calmaria). Em 1765, James Watt conseguiu transformar energia térmica, a partir do carvão, em energia mecânica. Para se ter uma ideia do impacto deste invento, a máquina de maior potência existente até então era uma roda d’água que servia ao Palácio de Versailles, com uma potência de apenas 75 cavalos-força, enquanto a primeira máquina a vapor de Watt, comercializada em 1769, tinha uma potência de 1000 HPs.

Então com o aparecimento de uma série de novas tecnologias (teares e fiandeiras) movidas pela máquina avapor de Watt, a Inglaterra, primeiramente, e o resto da Europa, em seguida, assistiram a uma explosão de crescimento, dando início ao nosso já conhecido ciclo de LP de Kondratieff.

Neste momento, alguns de vocês já podem estar se perguntando, como andava Saturno e Urano? E para aqueles que já suspeitavam: Plutão na época da RI iniciou sua passagem por Capricórnio concomitantemente à conjunção Saturno Urano (em 1761/62), ou seja, daquela vez o mundo assistiu a transformação no modo de fazer as coisas, através da introdução de tecnologias novíssimas que propiciaram o crescimento da produção de forma sem precedentes.

Que outras pistas então a passagem de Plutão durante a RI pode nos fornecer para o momento atual? Primeiro, eu posso ouvir ecos do sistema de putting-out no que hoje se convencionou chamar de home-office, onde não é mais necessário sair de casa para produzir. Recebemos nossas encomendas de trabalho por telefone, email ou ainda pelo correio tradicional ou por moto-boy, efetuamos nosso trabalho (seja uma consultoria econômica ou astrológica, um artigo, uma edição ou tradução de textos) de dentro de nossas próprias casas ou pequenos escritórios e enviamos o produto pronto ao cliente final.

A segunda pista é quanto à questão energética. O desenvolvimento da máquina a vapor na passagem anterior de Plutão nos faz lembrar que este tema agora deverá estar no cerne das discussões sobre fontes economicamente viáveis de energia renovável. Não faz mais sentido arrancarmos da natureza 4 toneladas de matérias-primas para produzirmos um automóvel e entregá-lo a uma única pessoa para sair pelas cidades grandes queimando petróleo, caro e escasso. Pra vocês terem uma ideia: SP, até antes da crise, licenciava cerca de 800 novos automóveis por dia contra o registro de 500 bebês recém nascidos! Essa equação desta forma não fecha.

Então o que Plutão em Capricórnio nos sinaliza e em que o mundo precisa mudar? A forma de fazer as coisas precisa mudar. A nossa relação com a matéria precisa mudar. Afinal, trabalhamos mais horas do que devíamos, para ganhar mais dinheiro do que precisamos, para comprar mais bens do que realmente necessitamos e muitas vezes para impressionar gente de quem nem gostamos realmente.

O ano de 2009 marca esse ponto de inflexão. A meu ver, a combinação da reversão cíclica com a transformação no modo de fazer as coisas sugere que seremos todos convidados a aprender a viver de uma nova forma, possivelmente com menos, para o bem da própria humanidade. Pois quem está em risco não é o planeta, mas nós, a raça humana. O planeta está para todo sempre salvo e continuará a existir por outros bilhões de anos, depois que os homens desaparecerem.

Finalmente chegamos à nossa terceira configuração:

Saturno fazendo um aspecto tenso com Plutão, a partir de novembro de 2009, pela primeira vez desde a queda das Torres em NY.

E o que significa astrologicamente esta configuração? Na verdade, ela guarda forte relação com a simbologia de Plutão em Capricórnio, pois representa implosão de poder, perda de status, quebra de hierarquia, um estado controlador e a emergência de tudo o que é podre, entre outros significados. Já podemos, portanto, imaginar que as transformações plutonianas da matéria vão se acentuar no final de 2009.

E o que podemos esperar? Desabamento de instituições que não estejam solidamente fundamentadas; falência de empresas e estados (o banco de investimentos Lehman Brothers e a Islândia aparentemente abriram a cena); emergência de um maior numero de casos de corrupção e dinheiro sujo (olha o caso Madoff); um estado mais intervencionista (ou seja, o estado pode vir a ser chamado a exercer um papel de comprador de última instância e de investidor de última instância, se os agentes privados não derem conta do recado); nacionalismo e protecionismo (aqui eu acho que a China vai desempenhar um papel fundamental).

Mas prestem atenção! A oposição Saturno Urano, que teve início no dia da eleição do Obama (lembram da frase emblemática que ele disse na noite da sua eleição no comício histórico de Chicago: change has come to Washington?) esta oposição permanece nos céus até o final de julho de 2010. A quadratura entre Saturno e Plutão, que veremos a partir de novembro de 2009, permanecerá até agosto de 2010. Entre julho de 2010 e fevereiro de 2011, será a vez de Júpiter quadrar Plutão. Também Marte fará aspecto tenso com Plutão entre julho e agosto de 2010. E ainda a partir de maio de 2010, Urano entra no signo de Áries. Ou seja, vamos observar cinco planetas em signos cardinais, que são signos de ação: Plutão, Urano, Saturno, Júpiter e Marte.

Eu fui buscar quando o último encontro desses planetas em signos cardinais se deu e encontrei o ano de 1930: o início da Grande Depressão Mundial. Mas vamos deixar a análise mais detalhada desta configuração para o nosso encontro no ano que vem.

O que é importante ter em mente é que não podemos olhar para trás e acreditar que as crises sejam iguais. Crises não se repetem, apenas se sucedem. Senão seria como analisar a folha fresca na árvore a partir das folhas secas no chão.

Para nossos propósitos hoje, essa configuração serve para indicar que a crise que esperamos para 2009, ao contrário do que muitos economistas andam proclamando, não será breve e deverá se agravar muito em 2010.

Em suma: o ano de 2009 faz parte de um longuíssimo processo de desenvolvimento das forças produtivas, e se reveste de uma importância histórica como ponto de inflexão do ciclo econômico de LP, associado a um processo de transformação tão profundo da economia quanto foi a própria RI, que nos lançou nessa vida materialmente focada em que vivemos.

A solução para essas questões que ora emergem não está no horizonte de 2009, nem dos anos imediatamente posteriores, mas podemos ter esperanças de que encontrará novas condições de possibilidades, ao longo dos próximos 20 a 25 anos. (lembrando que a saída de Plutão de Capricórnio será em 2024, e o novo encontro de Saturno com Urano, já no signo de Gêmeos se dará somente em 2032).

O momento em que vivemos me traz à mente uma frase do nosso querido Guimarães Rosa, ele mesmo um profundo estudioso da simbologia astrológica, que talvez sirva para nos ajudar a enfrentar esse pulsar da vida econômica. Ele diz: o correr da vida embrulha tudo. A vida e assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem.

Nota: as ideias aqui expostas são fruto de conversas com outros dois economistas formados pela UFRJ, Carlos Renato Mota e André da Paz.

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Rio, 10 de Janeiro de 2009.

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