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Os Intelectuais e a Astrologia

Silvia Ceres (Argentina) em 3 de maio de 2007

O historiador britânico Eric Hobsbawn denominou o século XIX como “o mais curto da História” porque, de acordo com seu critério, ele começa em 1914 – com o assassinato do arquiduque austro-húngaro – e termina em 1991 – com a queda do bloco socialista. Na verdade foi um período breve, porém intenso.
Ocorreram duas guerras mundiais, a chamada “guerra fria” com sua constante ameaça nuclear, as lutas para libertação das colônias européias na África, Ásia e Oriente Médio, assim como o desmembramento da União Soviética, redesenharam varias vezes o mapa mundial convertendo a geografia em uma ciência vertiginosa.  Ao mesmo tempo em que se redesenhavam fronteiras, se abriam debates no campo político, social e artístico, onde o conceito de ideologia ocupou o lugar de protagonista no discurso social.

Dentro desse clima de intensas reflexões, alguns intelectuais questionaram a Astrologia.
Um deles é Paul Feyerabend (1924/1994). Austríaco, filósofo da ciência, sua mente inquieta e curiosa o leva a estudar distintas matérias: arte, história, sociologia, física. Em uma primeira etapa de sua obra, segue as linhas do positivismo (1) do Círculo de Viena. Posteriormente, após estudar com Popper na Inglaterra, inaugura una época racionalista (2). Em 1959 encara uma revisão crítica do empirismo (3) para chegar a fins dos anos 60 a um pluralismo teórico buscando o maior número possível de hipóteses alternativas. A partir deste momento abraçará um relativismo (4) que o levará a sustentar que a ciência sofre mudanças, mas não progride, até cunhar o  conceito de Incomensurabilidade ou teorias científicas disjuntas enquanto pertencem a universos conceituais incompatíveis e intraduzíveis entre si.
No seu livro A ciência em uma sociedade livre (5), dedica um capítulo ao “estranho caso da Astrologia”. Comenta ali um artigo da revista Humanist de 1975, onde 186 destacados cientistas de distintas áreas – incluídos 18 Prêmios Nobel – se declaram contra a Astrologia.
Em seguida compara a redação deste manifesto com uma bula papal de 1484, encontrando um tom semelhante de escandalizada preocupação porque amplas camadas da população acreditam em teorias desviadas da “verdade”, quer dizer, do pensamento oficial da igreja ou da ciência.  Assinala que Inocêncio VIII conhece melhor a bruxaria do que os cientistas contemporâneos a Astrologia.
A partir daí sua crítica toma dois caminhos:
1 – Quando um jornalista da BBC tenta entrevistar algum destes 186 cientistas para aprofundar o tema do manifesto avalizado por eles, todos se negam, dizendo que nunca haviam estudado Astrologia e ignoravam seus argumentos.
2 – Realiza uma série de investigações científicas de última geração que demonstram a incidência da atividade solar, lunar e planetária na alteração de processos biológicos e químicos.
Finalmente, efetua uma crítica aos astrólogos pela carência de inquietudes para levar adiante investigações que permitam entrelaçar conceitos tradicionais de sua disciplina com a informação que aportam os descobrimentos técnicos.

Encontramos outra abordagem do tema em Theodor Adorno (1903/1969), filósofo, sociólogo e musicólogo alemão. Sua obra gira ao redor da tese de que a liberdade deve andar junto com a ilustração, porém esta, por sua vez, deve ser periodicamente submetida a uma crítica exaustiva a fim de não cair na despersonalização, perigo que surge da tentação de subordinar o indivíduo ao critério de cálculo e utilidade.
Adorno escreve Sob o signo dos astros (6), texto no qual ele analisa o conteúdo do horóscopo publicado pelo “Los Angeles Times”, entre novembro de 1952 e fevereiro de 1953.
Afirma que, em que pese os argumentos “científicos” que empregam os astrólogos, eles, basicamente, se limitam a ser uma corrente transmissora dos valores dominantes da sociedade. Sob o pretexto do modelo autoritário da dependência humana às posições planetárias, eles geram a dependência al sistema hegemônico.
Assinala que a cultura de massas incentiva o fanatismo em torno das doutrinas individualistas e da livre vontade, porém, paradoxalmente, dissipa a autentica liberdade de ação. A liberdade consiste, em última instancia, na aceitação voluntária daquilo que, em qualquer caso, é inevitável.

Uma terceira opinião pertence a Roland Barthes (1915/1980), crítico e lingüista francês. Em seu livro Mitologias (7)aborda os valores culturais (publicidade, turismo, automóvel, horóscopo) que, elevados a mitos, servem para manter a visão burguesa do mundo.
Assim, a partir de sua perspectiva, o horóscopo, longe de abrir o universo do sonho e da ilusão, duplica o mundo real dividido em compartimentos estanques: trabalho, lar, vida sentimental. De forma que o destino não altera grandemente a rotina cotidiana, conquanto apenas alerta para o risco de padecer um pouco mais de nervosismo ou aconselha tolerância frente aos pequenos inconvenientes do dia a dia.
Conclui afirmando que a Astrologia é a literatura do mundo burguês, enquanto nomeia ou descreve a realidade sem questioná-la nem desmistificá-la.

Por último mencionaremos  Zygmunt Bauman (1925), sociólogo polaco cujo eixo de reflexão se centra no que denomina “modernidade líquida”, um modelo contraposto ao da “modernidade sólida” que caracterizou o pensamento do século XIX e mais da metade  do XX.
Segundo Bauman, a chamada pós-modernidade é um universo fluido, instável, inacessível e carente de formas e objetivo. De tal forma que o importante não é o conceito de “pós”, como aquilo que está mais além da modernidade, mas sim a mudança de percepção da consistência do mundo em que vivemos.
Em seu livro Amor líquido (8), descreve as transformações atuais que colocam o cidadão fora do marco de estruturas de contenção – o emprego, a comunidade, os partidos políticos – deixando-o a mercê de um individualismo sufocante. Diz textualmente (9):
“ ….os astrólogos de eras passadas costumavam dizer a seus clientes aquilo que o destino inexorável, inapelável e implacável lhes reservava, sem importar aquilo que fizeram ou deixaram de fazer. Os expertos de nossa modernidade líquida muito provavelmente responsabilizarão a seus desconcertados e perplexos clientes.  Os consulentes vão ver então que suas angustias remetem a suas ações e inações e deverão buscar os erros de seu proceder: insuficiente auto-estima; desconhecimento de si mesmos; condutas negligentes, apego exagerado a antigas rotinas, lugares ou pessoas; falta de entusiasmo para mudança e resistência a esta uma vez que ocorra. Os conselheiros recomendarão mais amor próprio, segurança e cuidado consigo mesmo e sugerirão a seus clientes que prestem mais atenção à sua capacidade interior para o gozo e prazer, assim como menos “dependência” dos outros, menos atenção às exigências e maior distancia e frieza ao calcular perdas e ganhos. Daí em diante o cliente deverá perguntar-se com mais freqüência “me serve de algo?” e exigir com maior determinação de seus parceiros e do resto que lhe seja dado “mais espaço”, quer dizer, que se mantenham à distancia e que não esperem ingenuamente que os compromissos uma vez contraídos valham perpetuamente.”

Quatro enfoques, quatro opiniões, algumas afirmações para incorporar ao campo da reflexão e outras ao da discussão.
Adorno, Barthes y Bauman claramente apontam para a funcionalidade da Astrologia com relação a um determinado modelo político e social.  Conceito que, em parte, é possível compartilhar, porém que deixa em cena algumas zonas de sombras.  O astrólogo, assim como o psicólogo, o médico, o docente ou o advogado, são seres incluídos em um tempo e espaço determinados e se encontram perpassados pelos discursos que conformam o aparato ideológico de sua época.
Não obstante, vale perguntar pelo sujeito da cultura e a fina linha que o separa do propagandista que transmite valores sem o menor questionamento. Por outro lado, pode-se interpelar a Adorno e a Barthes, que reduzem a Astrologia ao fenômeno dos horóscopos massivos, o que fala mais sobre os meios de comunicação que sobre a Astrologia em si mesma.
Quanto a Feyerabend, questiona o discurso autoritário da ciência que determina aquilo que é digno de ser pensado e o que pertence à categoria de superstição ou pseudociência.
Por último não é um tema irrelevante o alerta para certa teorização astrológica que prefere seguir repetindo velhos preceitos sem confrontá-los com novas investigações que podem enriquecê-los.
Recordemos o caso de Michel Gauquelin, aquele investigador que ao redor dos anos 40 do século passado resolveu utilizar a estatística para desmascarar o que designou “as armadilhas astrológicas”. Para isso selecionou 25.000 dados de nascimento que organizou de acordo com profissões: escritores, desportistas, militares, médicos, cientistas.  Depois de uma árdua tarefa, descobriu que, com relação à vocação, as indicações astrológicas se cumpriam amplamente, muito acima da média esperada de acordo com o cálculo de probabilidades. suas conclusões foram desqualificadas arbitrariamente pelo mundo cientifico que nem mesmo questionou algumas possível falha metodológica.
Os astrólogos receberam com indiferença as estatísticas de Gauquelin.  Até hoje poucos conhecem suas pesquisas e ainda menos são os que seguiram seu caminho de cruzamento dos conceitos astrológicos com os conhecimentos advindos de outras disciplinas.  As razões desta negação escapam aos objetivos deste artigo, porém oferecem um bom motivo para continuar pensando …..

 


1.Teoria filosófica que aceita as verdades extraídas da observação e da experiência.
2.Corrente filosófica que sustenta que as idéias surgem do raciocínio e não da experiência.
3.Sistema que coloca na experiência a origem do conhecimento.
4.Teoria que enuncia que o ponto de vista do observador cria o fenômeno.
5.La ciência em uma socidad libre. 
Paul Feyerabend. Siglo XXI Editores. Madrid, España, 1982.
6.Bajo el signo de los astros. Theodor W. Adorno. Editorial Laia. Barcelona, España, 1986.
7.Mitologías. Roland Barthes. Siglo XXI Editores. México, 1980.
8.Amor líquido. Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos. Zygmunt Bauman. Fondo de Cultura Económica. Buenos Aires, Argentina, 2005.
9.Obra citada. Página 83.

Silvia Ceres é diplomada pelo Centro Astrológico de Buenos Aires (CABA), Argentina.
Desde 1995 difunde a Astrologia através do site Gente de Astrologia, GEA (www.gente-de-astrologia.com.ar), a primeira revista astrológica eletrônica, que hoje alcança quarenta e dois países. É autora dos livros: Astrologia Infantil. La carta natal de um niño; Astrologia, trabajo y crisis, Guia para la orientación vocacional; Astrosociologia , Sincronia de los Ciclos Planetários.

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Rio de Janeiro, 3 de maio de 2007

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