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O Resgate da Obra de Kepler

Ivana Acosta em 20 de agosto de 2011

Ivana Acosta entrevista Daniel Di Lisia

Artigo editado na Revista de Cultura “Clarín” número 304 (25/07/2009),  gentilmente cedido por Silvia Ceres que o publicou na revista eletrônica Gente de Astrologia  (www.gente-de-astrologia.com.ar) em junho de 2010.

O argentino Daniel Di Lisia, especialista em cosmologia do Renascimento e à frente da Kepler Komissión desde 2003, acaba de enviar para impressão aquele que é, por enquanto, o último volume da edição canônica dos papéis do Johannes Kepler, que inclui valiosos manuscritos do astrônomo.

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A idéia de que a humanidade progrediu mediante alguns poucos saltos do conhecimento sempre inclui uma brevíssima lista de nomes: os protagonistas e motores de cada uma dessas revoluções. Em todas as possíveis listas figuram Nicolau Copérnico, que apresentou um modelo cosmológico heliocêntrico no século XV, contra o geocentrismo dominante, e Galileu Galilei, condenado por afirmar que a Terra gira ao redor do Sol. Nem sempre Johannes Kepler, que  teve méritos tanto ou mais notáveis é incluído dentre eles.  Kepler demonstrou que as órbitas dos planetas não são circulares – como acreditava Copérnico – mas sim elípticas. E, diferentemente de Galileu, conseguiu fazer cálculos astronômicos de grande precisão.

Formado no luteranismo da Universidade de Tübingen, a serviço de imperadores e estadistas protestantes, Kepler gozou de uma liberdade especulativa maior que Copérnico e Galileu, e escreveu uma vasta obra. Não foram apenas os textos célebres que publicou em vida, como aAstronomia Nova, onde expõe sua hipótese do movimento planetário, ou as obras astronômicas e filosóficas, o Misterium Cosmographicum e aHarmonia Mundi, plenas de convicção na harmonia matemática do cosmos. Kepler deixou também muitos escritos técnicos, um vasto epistolário e obras “menores” que hoje projetam luz sobre a história do saber.

O legado da obra de Kepler permaneceu disperso por vários séculos (80% de seus escritos estão hoje em São Petersburgo; uma décima parte em Viena; o resto em bibliotecas públicas ou privadas na Alemanha) e começou a ser sistematizado no século XIX, quando Christian Frish publicou umaOpera Omnia que, no entanto, deixou de fora os manuscritos de Kepler. Mas surgiu um reitor otimista na Universidade Técnica de Munique que, em 1914, decidiu que uma edição completa era urgente. Fundou aKepler Komissión, com sede na Academia de Ciências da Baviera, que editou nestes 70 anos mais de 23 volumes da obra do matemático, filósofo e astrônomo alemão.

Daniel Di Lisia, argentino e alemão, formado em Filosofia na UBA, especializado em cosmologia medieval e renascentista na Alemanha, principal colaborador da Kepler Komissión desde 2003, acaba de enviar para impressão o que será, por enquanto, o penúltimo volume desta edição canônica. Em um diálogo em parte eletrônico, em parte telefônico, Di Lisia conta sobre este trabalho monumental e sobre Kepler, o gênio por trás das 12 mil folhas em latim e alemão antigo.

Como está organizada a edição canônica da Kepler Komissión?

Os primeiros doze volumes abrangem as grandes obras que Kepler publicou em vida. Os volumes 13 a 18 contêm cartas de Kepler e para Kepler, ou de terceiros que falam sobre ele. Mil cartas que, em muitos casos, são breves tratados científicos. O volume 19 traz documentos biográficos. Contém uma carta muito interessante na qual Kepler, muito jovem, traça seu próprio estudo psicológico: suas fraquezas, suas loucuras, seu horóscopo, fala dos livros de que gosta. Os volumes de 20 em diante contêm os manuscritos.

Por que são importantes os manuscritos?

Kepler morreu inesperadamente. Todo seu material ficou como estava naquele momento. Isto é determinante para a história posterior. Kepler estava acostumado a eliminar seus manuscritos quando publicava uma obra, embora haja exceções como suas tábuas astronômicas chamadas Tábuas Rudolfinas. Ali conservou suas notas porque queria aperfeiçoar certos cálculos sobre os quais pensava continuar trabalhando. Os manuscritos contêm projetos de obras que ele estava escrevendo ou pensava escrever no futuro, que são básicos para compreender seu desenvolvimento científico (por exemplo, com respeito à forma das órbitas, isto é, à passagem do emprego de círculos a elipses), e alguma outra obra importante que propositalmente nunca publicou (o importante tratado Contra Ursus sobre as “hipóteses astronômicas”). Sempre aparecem coisas novas e, inclusive, algumas às quais não podemos ter acesso. Tempos atrás procurei evitar que um manuscrito se perdesse em um arremate: consegui que a Biblioteca fizesse uma oferta no leilão, mas um japonês ofereceu 40 mil euros e o levou.

Kepler fez bombas de água?

Inventou a mais perfeita de todas, mas a roubaram. A bomba de azeite do automóvel e a bomba dentada, foi Kepler que as inventou. Tenho os manuscritos: 50 páginas, em alemão antigo e latim, e todas as imagens que provam que estava em negociação para que a comprassem. Ele diz que começou a trabalhar nisto em 1597, após ler De La Porta, um napolitano que tinha escrito um famoso livro, Magia Naturalis, em quatro volumes, que logo expandiu para vinte; entre eles, um com experimentos de pneumática. Ali De La Porta incluía trabalhos de Herón, o célebre fabricante de autômatos da Antigüidade, que acabava de ser traduzido do grego para o latim em Urbino. Em 1597 este livro, Magia Naturalis, caiu nas mãos de Kepler, que se pôs a testar os experimentos do italiano. Em um dado momento, Kepler escreveu: “Vi o engano e me ocorreu o aparelho”. Kepler fez contato com gente dedicada à mineração na Áustria, pessoas interessadas em construir estas bombas, que eram utilizadas em fontes de praças e palácios, para extrair água dos navios e na mineração. Até 1604 procurou conseguir uma patente, mas não chegou a concretizá-la e abandonou o projeto.

Como roubaram seu invento?

Não está claro, mas os documentos provam que Kepler foi o primeiro a inventar o aparelho e que depois de sua morte o invento circulava, mas sem conexão com seu nome. Johannes Pistorius (amigo do Kepler) havia conseguido o livro de Herón para ele. Kepler descobriu que a tradução para o latim estava cheia de erros. Segundo Kepler, Della Porta se inteirou de suas correções e as incorporou em um livro posterior: “Pneumaticorum libri tres” (1601). A pergunta é: se Kepler nunca publicou nada sobre o tema, como pôde Della Porta haver-se informado do que pensava Kepler? Kepler disse que Herón foi informado  por um intermediário chamado Adler. Tudo muito duvidoso…

Por que ele deixou o projeto?

Estava revolucionando a mecânica celeste, transformando a ótica, escrevendo uma fundamentação dos logaritmos. O interessante para quem estuda história da ciência é que tudo isto é, sem dúvida, filosofia e filologia, mas também é história social e política concreta e história da técnica. Para mim não só os textos sagrados são documentos: também a ilustração de uma capa. A capa  das Tábuas Rudolfinas, certamente desenhada por Kepler, tem acima uma águia imperial que está atirando umas moedinhas. A mim, me parece uma brincadeira com Rodolfo: “Estou  fazendo para você as tábuas astronômicas mais precisas que se conhece e colocando seu nome, estou transformando toda a astronomia, a ótica, e você me paga com três moedinhas…”. Não era fácil cobrar ao imperador.

O apadrinhamento é capital neste período. Em 1993 foi publicado um livro sobre a fascinação de Galileu com relação às Cortes, mas havia então outra maneira de fazer?

Na América do Norte está na moda o estudo do  patrocínio. E neste período a ciência cortesã é um caminho obrigatório. Todos precisavam de mecenas. Kepler os chama inclusive de “patrões”. Sabe-se que Kepler recusou um posto de professor universitário em Bolonha. O tema da ciência cortesã deveria ser estudado como tendência direta à aplicação, ao empirismo. Como não precisa dar aula, o sábio permanece independente do livro. Depende mais de seus próprios inventos e aparelhos: tem que apresentar sua criação a um delegado do Kaiser. Se este o aceitar, tem êxito. Esta é uma tendência chave no avanço da ciência moderna.

A importância e o sentido da Astrologia na obra do Kepler é tema controvertido. Que lugar ocupa, em sua opinião?

No mês que vem será conhecida a voz “Kepler”, que escrevi para a Stanford Encydopedia of Philosophy, que pode ser útil. Ali organizei por seções o marcante interesse de Kepler pela Astrologia, que é muito importante. Por um lado, há textos teóricos centrais: não só o livro IV de “A harmonia do mundo”, mas também outros menores, como um muito lindo, que estou traduzindo para o castelhano, intitulado “Sobre os fundamentos mais corretos da Astrologia”. Este primeiro livrinho filosófico, escrito em latim, foi o que apresentou ao imperador para chegar ao cargo de matemático imperial, sucessor de Tycho Brahe. Por outro lado, Kepler tem escritos polêmicos sobre Astrologia. Por exemplo, contra Eliseo Róssling, astrólogo fanático que mandava presságios a torto e a direito. Kepler diz que isso é uma loucura, que não há nenhum direito nem base fundada para se lançar um presságio específico.

Estas objeções de Kepler distanciaram astronomia e astrologia, até então unidas?

Kepler argumenta que a Astrologia se apóia na influência que os fenômenos celestes têm sobre os terrestres, mas que tal influência deve ser interpretada; todavia, não existe uma interpretação totalmente clara e distinta, mas sim uma repetição estatística que se pode interpretar como tendência ou indicação. Nada mais. Todo o resto é campo para os  charlatães. Neste sentido, Kepler dá um passo decisivo para esse distanciamento. Mas por outro lado, a Astrologia não só é importantíssima em Kepler, mas também teve um papel histórico chave ao introduzir na astronomia moderna o conceito de “força”, mediante seu correlato astrológico de “influência”. Toda astronomia pré-kepleriana é cinemática: descreve movimentos de planetas no tempo e no espaço, mas sem forças. A astrologia diz que existem efeitos, influência, um certo poder de um corpo celeste sobre outro. Se a esta idéia se consegue dar significação física, já se está lidando, de certo modo, com a idéia de gravitação. Os astrólogos eram partidários da idéia de motor à distância. Não é casual que Newton a passasse lendo livros de alquimia…

Em sua “Astronomia Nova”, Kepler exclui a astrologia. Por quê?

Ele diz que são dois mundos à parte. E que a astronomia não necessariamente deve ser de utilidade prática para os astrólogos. Há uma discussão sobre isto. Minha hipótese é que Kepler não queria submeter seu modelo astronômico ao julgamento dos astrólogos, que eram um primeiro filtro antes de chegar ao Kaiser. Os astrólogos eram os primeiros a utilizar as idéias astronômicas e, se não lhes serviam, rechaçavam-nas. Há outro texto interessante de Kepler sobre astrologia, Tercius intervenient, em alemão, contra uma anti-astrologia fanática. Kepler diz que tome cuidado para não atirar o bebê com a água suja da banheira (um dito muito alemão), ou seja, que não destrua o valor da astrologia por objetar um ponto. Kepler era consciente do campo de aplicação da astrologia na vida social e econômica, antecedente de nossos prognósticos meteorológicos.

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Kepler também fez horóscopos.

Durante toda sua vida. Milhares de horóscopos: do imperador Rodolfo, de Albrecht von Wallenstein. Fazia só para ganhar dinheiro? Em parte sim, em parte não. Queria ganhar dinheiro (e, além do mais, não tinha opção: não podia se negar se era o imperador quem pedia), mas creio que também lhe interessavam para testar a astrologia, como cálculo de propriedades razoáveis; por isso fez o horóscopo de seus filhos e de seus amigos, com os quais não podia ganhar dinheiro. Neste mesmo volume da obra completa, que enviamos para impressão, aparece a coleção dos horóscopos feitos por Kepler.

Que interessante.

Bom, são 500 páginas de tábuas, bastante iguais. A sua é uma crítica qualificada da astrologia. Para ele, fazer astrologia é como procurar pérolas no lixo. Kepler tinha muito humor. A capa de seus trabalhos astrológicos ilustra isso muito bem: uma galinha bicando uma pérola no lixo.

Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2011.

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