Artigos

O Desconforto dos Planetas Exilados

Autor: Silvia Ceres Tradução: Angela Nunes em 1 de dezembro de 2014

(Publicado em castelhano em http://www.gente-de-astrologia.com.ar novembro 2014)

Afirma-se, frequentemente, que um planeta em detrimento – presente no signo oposto ao seu domicílio ou exaltação – encontra-se debilitado, aumentando suas facetas maléficas e diminuindo seus efeitos benéficos.

Sem dúvida, é uma afirmação um tanto difícil de se captar, na medida em que implica uma categórica e inquestionável divisão entre benéfico e maléfico – como o mocinho e o vilão dos westerns de nossa infância – que não é tão simples assim, pois já aprendemos a duvidar dos bons-boníssimos e dos maus-malíssimos.

Antes de definir o funcionamento particular de um planeta nesta posição, vale recordar que o exílio ou desterro era uma severa condenação para o cidadão da Grécia clássica, na medida em que o submetia a uma experiência de estranhamento como consequência da quebra dos laços do cidadão com a polis.

Tornar-se estrangeiro significa, entre outras coisas, entrar em um território cujo código é estranho, desconhecido. Perder a língua materna não se reduz a um problema intelectual mas sim, principalmente, a um assunto emocional de se perceber desenraizado, estranho a si mesmo.

Seguindo o significado grego do castigo ao desterrado, poderíamos enunciar que um planeta localizado no signo oposto à sua regência carece de empatia com as características do território ocupado e, em sua necessidade de se expressar, o faz de maneira inadequada, como uma nota dissonante, fora do tom.

O astrólogo vienense Oskar Adler sustentou que as posições exiladas não são realmente “debilidades” – no sentido de pouca vitalidade na manifestação – senão antes uma função dos planetas estranhamente intensificada, fora de foco na medida em que o planeta carece de sintonia com a natureza do signo onde se localiza.

Em linguagem coloquial, se poderia pensar numa pessoa surda que, como não ouve os demais, fala aos gritos. Portanto, o planeta exilado mostra uma veemência exacerbada em sua manifestação.

Assim, é frequente se observar o Sol em Aquário com uma atitude arrogante, fruto da certeza de pertencer a uma aristocracia intelectual raramente apreciada pelo povo.

Ou uma Lua em Capricórnio semelhante à mãe de Woody Allen que, com sua superproteção, interfere na vida de seu filho quarentão.

Convenhamos que o Mercúrios em Sagitário ou em Peixes não carece de eloquência, valendo mais propor limites e organização a discursos que fluem ininterruptamente como água de um manancial.

Quem não observou que a Vênus em Escorpião está sempre preparada para surpreender, com sua sedução, sua possível presa? Ou esse Marte de Libra queixoso ou mandão? Ou esse Júpiter em Gêmeos, disposto a instruir seu interlocutor o tempo todo e a iluminá-lo com sua sabedoria?

Nem a esse Saturno em Câncer que, longe de perder responsabilidade, ainda se reprova por não haver estado ali para impedir que Eva desse a maçã para Adão provar.

Deixando de lado descrições caricatas, seria pertinente redefinir a debilidade não como “carência de…”, e sim como “excesso de…”.

Segundo meu critério, a ignorância do funcionamento de planetas em exílio deu origem, nos últimos tempos, à interpretação de “personalidade polarizada”.

Assim, ouve-se afirmar alegremente que Libra desconsiderado polarizou-se em Áries, esquecendo-se de que, enquanto signo de detrimento de Marte – exílio – e do Sol – queda, reflete um ser necessitado de reconhecimento pela sua individualidade, mas impossibilitado de afirmar com facilidade sua autonomia.

Do mesmo modo, Touro ressentido não se polarizou em Escorpião – que é simplesmente o detrimento de Marte e Plutão – mas o que para um escorpiano de lei é a espera paciente de ver passar o cadáver do inimigo, será para esse taurino uma fonte constante de rancor e aborrecimento guardados em seu interior como um tesouro estimado.

Sagitário estilo “Wikipédia” não se polarizou em Gêmeos – simplesmente padece de bulimia informativa devido ao exílio de Mercúrio.

Diferentes naturezas do exílio

Morin de Villefranche ressaltou que nem todos os desterros são iguais e, portanto, faz-se necessário diferenciá-los. A Lua em Capricórnio, território de Saturno – domicílio – e Marte – exaltação – encontra-se mais aflita que Saturno em Câncer, território da Lua – domicílio – e de Júpiter – exaltação.

Do mesmo modo, os exílios de Vênus são mais tensos que os de Marte, na medida em que a primeira, localizada em Áries ou Escorpião, sofre a beligerância de Marte, enquanto este em Touro ou Libra recebe o bom tratamento de Vênus.

Certamente, nenhum de nós se sentiria à vontade se estivesse perdido em uma cidade desconhecida, cuja língua fosse ignorada. Mas se os transeuntes nos olhassem com simpatia e sorrissem, ficaríamos menos assustados do que se estivéssemos na mesma situação mas sob olhares hostis e ameaçadores.

Seguindo a reflexão de Morin, é interessante observar que, ao avaliarmos um mapa natal, se não perdermos de vista o movimento planetário nele implícito, poderemos também realizar diferenciações.

Por uma questão de simplicidade, concordemos em utilizar as direções ptolomaicas, que permitem o avanço constante de todos os planetas de acordo com a equivalência 1° = 1 ano, independentemente da velocidade de seu deslocamento astronômico.

Deixando de lado os luminares, possuidores de um só domicílio e, portanto, de um só exílio, encontramos o seguinte quadro diferenciado de desterros:

Mercúrio em Sagitário passará a Capricórnio – trigonocracia, dignidade menor associada com um elemento de acordo com sua natureza planetária, na medida em que rege Virgem, signo de Terra. No entanto, Mercúrio em Peixes progredirá a Áries, signo pertencente ao elemento Fogo, pouco afim com seu funcionamento.

Vênus em Áries, antes ou depois, ingressará em Touro – domicílio. Vênus em Escorpião seguirá seu caminho até Sagitário, setor alheio à sua expressão.

Marte em Libra se deslocará para Escorpião – domicílio. Marte em Touro ingressará em Gêmeos, signo escassamente analógico à sua natureza.

Júpiter em Gêmeos irá rumo a Câncer – exaltação. Júpiter em Virgem passará ao território de Libra, sendo o Ar um elemento estranho para esse planeta.

Saturno em Câncer progredirá a Leão – sai de um signo de exílio para entrar em outro de igual condição. Saturno em Leão se moverá para Virgem – trigonocracia.

Alguns opinarão que é hora de abandonar estas antiguidades. Pessoalmente, creio que não é questão de excluir mas sim de incorporar, pois o cortês não impede o valente.

 

Outros textos da argentina  Silvia Ceres são encontrados em http://www.gente-de-astrologia.com.ar

 

Rio de Janeiro 01/12/2014

É proibida a reprodução total ou parcial deste texto.