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Estrelas Fixas – O Método Original

Celisa Beranger em 16 de agosto de 2005

(Palestra proferida no 7° Simpósio Nacional de Astrologia do SINARJ)

Desde os tempos mais remotos as estrelas fascinam os homens. Elas foram  representadas nas pinturas rupestres das cavernas e nas gravações em pedra do paleolítico superior (entre 28.000 e 10.000 AC) Na década de 90, Alexander Gurshtein, do Instituto da História da Ciência e Tecnologia da Academia Russa, afirmou que por volta de 5.600 AC os homens começaram a agrupar as estrelas para fixar certas áreas do céu.

Em 2.000, as descobertas do Dr. Michael Rapengluck, da Universidade de Munique, de certa forma, contestaram a afirmativa de Gurshtein porque  concluíram que o Touro abaixo das Plêiades, na entrada da  caverna de Lascaux, na França, representa a constelação que estava no equinócio de outono em 15.300 AC.

Na Mesopotâmia as estrelas foram distinguidas com relação aos planetas ao receberem a designação de fixas, enquanto os  planetas foram denominadas errantes.  A partir de então os agrupamentos de estrelas passaram a receber  nomes de heróis ou animais para que suas aventuras  ou provas permanecessem para sempre entre os homens.  Estas aventuras constituem os catasterismos (do grego katasterizó – colocado entre as estrelas). Estes catasterismos, ou mitos das constelações, foram descritos por  Eudoxo, Aratus, Eratosthenes e Hygino,entre os séculos IV AC e I DC.

Em 1930 a União Internacional de Astronomia definiu e delimitou 88 constelações sem considerar as figuras vistas pelas civilizações antigas e desmembrou algumas delas (por exemplo, Argo o navio dos argonautas foi dividido em cinco constelações) e novas constelações também foram inseridas, algumas formadas por estrelas de pouco brilho. Com este novo arranjo algumas das estrelas antigas mudaram de constelação, este é o caso de Canopus, o comandante do  Argo, que agora pertence à constelação  Carina.

Os mitos das constelações foram utilizados para a interpretação dos signos que a elas se sobrepõem. Por exemplo, o  fato de Argo estar na parte do céu que corresponde ao signo de  Câncer motivou o interesse dos cancerianos pelo mar.

No século II AC, Hiparco de Nicéia, constatou uma diferença de 2° na posição da estrela Spica, considerada a mais antiga, ao compará-la com sua posição na lista de  Arystilli e Timochares, 150 anos antes. Hiparco supôs então que as estrelas possuíam um pequeno movimento. Este movimento é a precessão dos equinócios, comprovada por Isaac Newton no século XVII, ou melhor, o eixo da terra possui um movimento que se completa em 25.920 anos e promove o deslocamento das constelações em relação aos pontos fixos dos equinócios e solstícios que a Astrologia Tropical estabeleceu em 0° de Áries, Libra, Câncer e Capricórnio.

Devido a este movimento as estrelas se deslocam cerca de 50”por ano, ou 1° a cada 72 anos, e as constelações se movem, no sentido contrário, através do zodíaco tropical fixo. Quando ocorre uma mudança de constelação no ponto equinocial vernal (nosso 0° de Áries) começa  uma nova era para a humanidade. Atualmente este ponto está no começo de Peixes.

Há mais de 4.000 anos os homens começaram a utilizar as estrelas em sua ascensão no horizonte local. Em 2.100 AC a ascensão da estrela Sirius, após o seu período de invisibilidade já era utilizada como referência para o começo do calendário egípcio. A primeira lista de estrelas da Babilônia, datada de 1.100 AC e denominada como lista do Astrolábio, relaciona as estrelas que ascendem antes do Sol em diversas ocasiões do ano.

Hoje sabemos que a Astrologia começou a utilizar as estrelas em sua ascensão, culminação e ocaso e também nosparans, abreviação do grego paranatellõ (ascender junto), formados pelas estrelas com astros nestes três pontos mais marcantes do horizonte local, privilegiando assim sua visibilidade.O termo paran é conhecido pelos astrólogos por sua utilização na astrocartografia, porém sua origem está no método original das estrelas.

O método dos parans chegou até nós graças à obra daquele que ficou conhecido como Anônimo 379, porque seu texto foi escrito em Roma neste ano. Dentre os contemporâneos a australiana Bernadette Brady foi uma das primeiras a pesquisar o método original e foi através de seu livro Fixed Stars que tomamos conhecimento dele, antes mesmo de conseguirmos os fragmentos do material do Anônimo, traduzido por Robert Schmidt do Project Hindsight.

Embora citado pelo francês Morin de Villefranche (séc XVII), em sua Teoria das Determinações contida na Astrologia Gallica, quando afirma a importância da consideração das estrelas em suas ascensões, culminações e ocasos, este método é muito pouco conhecido pelos astrólogos.

O principal motivo do desconhecimento do método original deve-se ao fato de  Ptolomeu ter sugerido um outro método e, como através dos séculos os astrólogos  fundamentalmente o seguiram,  seu método foi o único difundido. No livro III do Tetrabiblos Ptolomeu propôs naturezas planetárias para 48 constelações e destacou individualmente poucas estrelas. Ptolomeu não considerou o método original e sugeriu a projeção das estrelas na eclíptica, utilizando os pólos eclípticos, desconsiderando a variação de suas distâncias com relação à eclíptica, ou melhor, ele propôs para as estrelas um método similar àquele utilizado para os planetas. Contudo, os planetas conhecidos pelos antigos estavam muito próximos da eclíptica enquanto as posições das estrelas possuem variações muito grandes. Segundo o método sugerido por Ptolomeu, estrelas muito distantes umas das outras podem ser encontradas em um mesmo grau da eclíptica, este é o caso de Spica, que está sobre a eclíptica, e Arcturus, que está muito distante deste círculo.

Na verdade o método sugerido por Ptolomeu é bem mais simples que o método original, porque não considera o horizonte local. Este método foi revisto e alterado, no século XV, por Ulug Beg e Regiomontanus que mudaram a referência dos pólos eclípticos  para os pólos equatoriais.

A obra do Anônimo apresenta os dois métodos ressaltando a necessidade de sua utilização em conjunto, porém privilegia a visibilidade local das estrelas.

No método original a posição mais importante para uma estrela é a ocupação de um dos ângulos na hora do nascimento, ou melhor, quando ela ascende com o grau do Ascendente, culmina com o grau do Meio do Céu, se põe com o  Descendente ou tem sua culminação inferior com o Fundo do Céu.  Nesta condição a força da estrela estará focada naquele ponto e funcionará durante toda a vida com relação ao assunto do ângulo. Por exemplo, no Meio do Céu está relacionada à posição social e à carreira.

Além dos ângulos o Anônimo chama atenção para a importância das estrelas ligadas à Lua porque quando houver uma estrela notável a pessoa terá uma vida brilhante.

No método original, se uma estrela estiver ascendendo, culminando ou no ocaso, enquanto um luminar ou planeta estiver localizado em um dos quatro pontos de encontro da eclíptica com o horizonte local (norte, sul, leste, oeste), um  paran estará  formado. É importante ressaltar que a estrela não precisa estar exatamente em um dos quatro pontos de interseção da eclíptica com o horizonte, porque todo o plano do horizonte é considerado, portanto basta que a estrelas  esteja próxima aos pontos cardeais locais. A formação de um paran promove a  interseção simultânea do planeta e estrela com a Terra.

O Anônimo sugere uma correlação dos parans com as diferentes etapas da vida. Isto dependerá da localização das estrelas no horizonte. Na ascensão ou culminação superior elas marcam a vida desde cedo, enquanto no ocaso elas se manifestam da metade para o final da vida e no nadir sua manifestação ocorre na velhice. Uma estrela importante nesta posição indica que a morte será notada e reconhecida.

Uma vantagem do método original é o fato de poder ser utilizado até  mesmo quando a hora do nascimento não é conhecida. O movimento do céu no horizonte é acompanhado durante 24 horas, a partir do nascer do Sol. Quando a hora de nascimento for conhecida, o movimento deve ser considerado a partir do nascer ou do pôr do Sol, o que estiver imediatamente antes do nascimento.

As estrelas são muito importantes para a interpretação de uma carta natal porque a enriquecem ao propiciarem mais informações do que aquelas que podem ser obtidas com os planetas apenas.

Elas são as grandes indicadoras de feitos espetaculares.Uma pessoa só terá vida marcante se as estrelas assim o confirmarem, portanto a grandeza só será alcançada com o apoio das estrelas. Só elas, e apenas elas, podem elevar ao cume do sucesso e da fortuna ou promover sua derrubada.

As estrelas devem ser consideradas como a base sobre a qual a carta natal se localiza.

Em nossas pesquisas verificamos que, na maioria dos casos, especialmente, para feitos ou situações  marcantes, bons ou maus, é preciso considerar  as estrelas segundo o método original.

O programa Solar Fire, em sua lista de Reports, apresenta o star parans, mas ele não está correto e não pode ser utilizado. Starlight  é o programa feito sob a orientação de Bernadette Brady especialmente para o cálculo dosparans. O Starlight também apresenta a visibilidade de um céu local em qualquer época  (www.zyntara.com). O novo programa Meridian do argentino Juan Saba também inclui os parans (www.catharsoftware.com)

Um dos problemas para a interpretação das estrelas é a divergência existente entre os principais autores modernos (Robson, Ebertin e Brady) quanto ao seu significado, mas é possível chegar a um consenso. De qualquer forma não devemos esquecer que cada estrela pertence a uma dada constelação e dela recebe uma espécie de característica coletiva, fornecida pelo catasterismo ou mito da constelação, que deve atuar  como ponto de partida para sua interpretação.

Sem duvidas, há estrelas muito mais importantes que outras, algumas são marcantes por serem boas e outras por serem ruins, como é o caso das quatro que estavam nos equinócios e solstícios em 3.000 AC e ficaram conhecidas como as reais da Pérsia: Aldebaran, Antares, Regulus e Fomalhaut.

Nossa sugestão é a utilização de 30 estrelas. No final do texto apresentamos a relação sugerida e também aquelas relacionadas pelo Anônimo.

Como exemplo apresentamos a carta natal da Princesa Diana

(01/07/1961, 1945 horas.Sandringham ENG)

Método Original.

Spica culmina com o Meio do Céu – êxito e renome, habilidade fora do comum.

Parans com o Sol

Alpheratz ascende enquanto o  Sol se põe – amor à liberdade.

Sirius na culminação inferior  com o Sol se pondo – brilho e renome que  pode queimar rápido, mas promove imortalidade.

Facies ascende enquanto o Sol se põe – implacável e rude, violência promovida ou sofrida.

Menkar na culminação inferior com o Sol se pondo – ameaçada de ter que ultrapassar grandes testes.

Parans com a Lua

Regulus se põe com a Lua ascendendo – potencial para liderança posição e sucesso, mas não pode abusar da posição alcançada ou desrespeitar os outros para não provocar vingança.

Rigel  na culminação inferior com a Lua ascendendo – promove sucesso por sua contribuição para o coletivo, mas não é fácil manter o sucesso alcançado.

Facies se põe com a Lua culminando –  violência ou tumulto no âmbito familiar..

Parans com Vênus

Alphecca culmina com Vênus ascendendo – mudança de status e posição social através do amor, porém enfrenta dificuldades na posição alcançada.

Parans com Marte

Bellatrix na culminação inferior com Marte se pondo – potencial para sucesso, mas sua manutenção é difícil. É preciso atenção permanente para as atitudes pessoais porque imprudência pode ter resultado desastroso.

Método de Ptolomeu

Sirius em conjunção ao Meio do Céu (como no método original)

Arcturus em conjunção ao Meio do Céu – capacidade para empreendimento e liderança, sucesso e honras. Visão de um caminho novo, mas para abraçá-lo e levá-lo a frente é necessário enfrentar pessoas e situações.

Conclusão: Podemos observar que o método original é muito mais importante que o método eclíptico. Sem dúvida também não podemos deixar de considerar as condições dos planetas na carta natal. Saturno em quadratura ao Meio do Céu, Vênus focal de quadratura T envolvendo Lua e Urano, etc…

 ESTRELAS  MAIS  PODEROSAS

Nome Constelação

AS REAIS DA PÉRSIA
ALDEBARAN  Touro (a mais poderosa para o Anônimo)
ANTARES  Escorpião  (pode ser destrutiva)
FOMALHAUT  Peixe Austral
REGULUS  Leão
AS MELHORES
SIRIUS  Cão Maior (referência marcante no Egito)
SPICA  Virgem  (a mais antiga dentre as estrelas)
CANOPUS  Carina
VEGA  Lira
RIGEL Orion
BETELGEUSE  Orion
BELLATRIX  Orion
AS MAIS DIFÍCEIS
ALGOL  Perseu (a pior)
CAPULUS  Perseu
ZOSMA  Leão
MENKAR  Baleia
FACIES  Sagitário
PLEIADES  Touro
PROCYON  Cão Menor
ALGORAB  Corvo

 ESTRELAS RELACIONADAS PELO ANÔNIMO 379

Nome Constelação
SPICA Alfa de Virgem
VEJA Alfa de Lira
FOMALHAUT Alfa do Peixe Austral
DENEB ADIGE Alfa de Cisne
ALPHECA Alfa da Coroa do Norte
REGULUS Alfa de Leão
ARCTURUS Alfa do Boieiro
ALTAIR Alfa de Águia
ANTARES Alfa de Escorpião
RIGEL Beta de Orion
ALNILAN Epsilon de Orion
MENKALINAM Beta de Auriga
RUKBAT Alfa de Sagitário
ALGOL Beta de Perseu
SIRIUS Alfa do Cão Menor
POLLUX Beta de Gêmeos
ZUBENSCHEMALI Beta de Libra
CASTOR Alfa de Gêmeos
BELLATRIX Gama de Orion
PROCYON Alfa do Cão Maior
BETELGEUSE Alfa de Orion
ALPHERATZ Alfa de Andrômeda
BUNGULA Alfa do Centauro
ACHERNAR Alfa de Erídano
DENEBOLA Beta de Leão
ZOSMA Delta de Leão
ALPHARD Alfa de Hydra
ALDEBARAN Alfa de Touro (destacada como a melhor de todas)
*CANOPUS

 

Alfa de Carina (ex Argo)*(Citada e não incluída por não ser visível em Roma)

Bibliografia

Tratado das Estrelas Brilhantes – Anônimo 379 – Project Hindsight
Star Myths – Theony Condos
Le Ciel – Ératosthène – Pascal Charvet
Fixed Stars – Bernadette Brady

 

Rio de Janeiro, 12 de Setembro

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