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As Casas ou Quando a Terra Recebe o Céu

Silvia Ceres (Argentina) em 17 de abril de 2011

INTRODUÇÃO

Na antigüidade remota, os povos mesopotâmicos começaram a relacionar as posições celestes com os vaivéns de sua agricultura. Deste primeiro casamento, entre as observações astronômicas e o mundo vegetal, foi se ampliando o horizonte até o que hoje denominamos Astrologia Mundana: a sorte do reino e de seu soberano ficaram indissoluvelmente atadas aos ciclos dos eclipses, ao deslocamento planetário, ao início das estações.

As observações apoiadas no movimento de translação da Terra ao redor do Sol chegaram a precisar as posições dos astros no céu, os ângulos –aspectos – realizados entre eles, as estrelas fixas, as fases da Lua, etc.

O historiador Flavio Josefo atribuiu a Beroso – sacerdote babilônio do século III a.C. – a introdução do conhecimento astrológico na Grécia. Deve-se ao mundo helênico o traçado da divisão de casas, que em princípio foi de 4 setores para em seguida passar a 8 e finalmente a 12, como atualmente o conhecemos.

Sem dúvida, foi tão importante esta inovação que a palavra horóscopo – ponto que ascende – converteu-se em sinônimo de carta natal.

O sistema astrológico das casas permitiu aproximar o céu do homem, torná-lo interior, próprio e subjetivo, outorgando importância à Astrologia individual.

Enquanto enunciamos frases como “Mercúrio se localiza em 14º de Leão”, ou “a Lua está em quarto crescente”, estamos mencionando fenômenos convocados no firmamento, fora – e longe – do indivíduo a quem é reservado o papel de mero observador desses fenômenos.

Logo, quando dizemos: “Mercúrio se localiza em 14º de Leão, na casa VI ou I, o homem se “apropria” dessa energia incorporando ao universo pessoal uma posição planetária do universo estelar. Para situar o planeta em um determinado setor, é necessário levar em conta o movimento de rotação da Terra sobre seu próprio eixo.

Movimento este que nosso planeta realiza ao cabo de 24 horas, oferecendo uma visão do céu diferente, de acordo com a hora e lugar em que se encontra o observador do firmamento. Dito de outra maneira, as casas inserem o indivíduo nas coordenadas tempo-espaço, outorgando- lhe uma identidade histórica e geográfica.

Os planetas nos signos perfilam o indivíduo como Filho do Céu, enquanto as casas permitem descrever o ser como Filho da Terra, através das circunstâncias que possibilitam a dito indivíduo desdobrar seu ser no mundo.

De maneira que sobre o esquema da domificação atuarão a educação -formal e informal – os estímulos do meio ambiente, o clima que rodeia a vida do sujeito e as experiências vivenciais.

Em síntese, o círculo zodiacal e de domificação, assim como respondem a dois movimentos astronômicos diferentes da Terra – a translação e a rotação – respondem a diferentes dinâmicas funcionais.

AS CASAS

Embora existam distintos percursos possíveis para refletir sobre o significado de cada setor terrestre da carta natal, nesta oportunidade escolherei em primeira instância a abordagem realizada pelo astrólogo austríaco Oskar Adler (1875/1955) em um ciclo de conferências ditadas entre 1930 e 1938.

Enquanto o ponto vernal, ou interseção da Eclíptica com o Equador Celeste, marca o ponto de início – 0º Áries – no sistema celeste, existe uma correspondência analógica entre a interseção do horizonte do lugar e a Eclíptica – Ascendente – no sistema terrestre.

O eixo Ascendente-Descendente divide o mapa natal em um semicírculo diurno, de natureza luminosa ou solar, e outro semicírculo noturno, de características lunares.

A zona superior define uma área de liberdade cujo ponto culminante se localiza na casa X, denotando as conquistas pessoais, fruto do esforço do indivíduo para dar o melhor de si no tempo e lugar onde desenvolve sua existência.

Como imagem, se poderia pensar que a metade superior, diurna, possibilita aos planetas irradiar sua energia livremente, sem obstáculos; mas os localizados na metade inferior têm que atravessar a massa terrestre – o horizonte – submetendo-se à filtragem do planeta Terra.

A zona inferior refere-se a uma região de necessidade, determinada pelo passado e pela herança. O ponto máximo do território noturno localiza-se na casa IV, setor da necessidade suprema de ter sido concebido pelos pais. Este setor denota que se pertence a uma estirpe, a uma cultura e a uma pátria determinada.

A seu lado encontramos a casa III, algo mais próxima do horizonte, onde moram nossos vínculos familiares que se apóiam na igualdade de nível – irmãos, primos. Este setor assinala o âmbito por excelência do que é dividido e da comunicação, assentada sobre uma base comum – o consangüíneo ou o idioma.

A seguir da casa IV – sobre o oeste – localiza-se a casa V, relacionada com filhos, amores, ensino, jogos de azar e criatividade. Claramente os filhos – fruto de prévios amores – conformam um elo na cadeia da herança; de maneira não tão categórica, mas não por isso menos concreta, o ensino e a criatividade conformam modelos de transmissão de uma cultura determinada. Quanto ao jogo, é uma forma lúdica de tentar nos liberar da sobredeterminação, embora finalmente o acaso, indefectívelmente, vencerá e submeterá a seus intuitos o intento de autonomia.

A casa II, casa da fortuna, também poderíamos denominá-la o setor dos talentos, em uma dupla acepção da palavra. Por um lado, assinala dinheiro e bens materiais relacionados com o entorno do nativo. Mas nela também residem os dons e as faculdades psíquicas e espirituais, uma capacidade ou poder que chegam ao homem como dote para sua vida. O indivíduo, possuindo alguma idéia de sua liberdade pessoal, decidirá – como na parábola evangélica – o que fazer com os talentos recebidos.

A casa I – já limitando com o horizonte – contêm a constituição psicofísica, as características da natureza do nativo, que foi outorgada como um veículo indispensável para representar a obra dramática de sua própria vida.

Cada Ascendente possível determina a posição das restantes onze casas, mas também define um tipo de personalidade, uma imagem da vida, uma lenda vital. Assim, encontramos uma lenda em Áries, uma em Touro, etc. que por sua vez condicionam as demais circunstâncias da existência.

Só paulatinamente aprendemos no transcurso da vida a descobrir nossa verdadeira natureza. O combate do autoconhecimento torna possível impor passo a passo a própria personalidade sobre o saber herdado.

Finalmente – tocando também a linha limítrofe entre o superior e o inferior – localiza-se a casa VI, onde ingressam os planetas imediatamente depois de seu ocaso. Segundo a tradição, é a casa da saúde e da enfermidade, a casa da “servidão”. A saúde e a enfermidade dependem da constituição total do corpo – servo primitivo do homem – e por isso pertencem ainda ao âmbito do hereditário. A saúde poderia ser definida como a cooperação harmônica entre os órgãos em favor do propósito da existência. Mais tarde, na vida consciente do homem, converte-se no possível significador de sua adaptação harmoniosa ao organismo social, mediante o trabalho.

Por cima do horizonte se encontram as casas que já se livraram da herança e sua coerção; e nelas se alcança, paulatinamente, a autodeterminação pessoal.

A primeira casa sobre o horizonte é a XII, relacionada com os inimigos ocultos e lugares de confinamento. Assim como o Sol a cada amanhecer ingressa neste setor, também o ser humano no instante de seu nascimento dá o passo para ingressar no mundo diurno.

Ali se enfrenta inicialmente o conflito de um entorno inteiramente hostil. Já o próprio ato do nascimento é um acontecimento dramático, devido ao repentino desligamento que significa ser expulso da contenção do útero para entrar em um mundo estranho e adverso, à total mercê de perigos desconhecidos. É paradoxal que a primeira casa da liberdade seja também a da impotência e dos temores. Vale recordar os rituais de certas escolas iniciáticas, que fazem o adepto passar por situações tenebrosas, semelhantes ao ato do parto e do nascimento.

A casa XI, a dos amigos, assinala o espaço amistoso das ajudas que nos assistem na batalha pela liberdade iniciada na casa anterior.

O cuidado materno é a primeira força auxiliadora da vida, é a primeira fonte de simpatia, o primeiro gesto amistoso. Mais tarde na vida, ela se converte no significado simbólico da capacidade para reconhecer e procurar livremente as atitudes reciprocamente solidárias.

A casa X ocupa o lugar mais alto acima do horizonte, assim como a IV se acha no ponto mais profundo debaixo do mesmo. É a casa da ação no reino da liberdade, onde o sujeito irradia para o entorno sua capacidade de gestão de forma independente e imediata. A atividade humana na esfera pública se torna a revelação consciente de seu ser, o compromisso moral da responsabilidade por sua conduta, ante si mesmo e ante outros. A finalidade essencial desta casa cardeal é que aqui acontece a irrevogável interação com o meio ambiente, onde o nativo imprime seus rastros próprios no mundo, cumprindo com o que está acostumado a chamar-se profissão, quer dizer, sua missão no mundo terrestre. Aquilo que o indivíduo manifesta, retorna a ele como o eco externo de seu ambiente: sua boa ou má reputação, a honra ou desonra, o prêmio ou castigo à sua conduta, etc.

Atravessando o meridiano aparece a casa IX, o setor das grandes viagens, dos estudos e da religião. O homem, mediante o desdobramento de sua ação, se enredou em seu entorno, imprimiu sua marca, se dispersou para o exterior; agora é questão de retornar a si mesmo, se encontrar, iniciar a grande viagem ao próprio eu, o verdadeiro eu e não eu que foi herdado. Este grande itinerário através de diversas paisagens é aquele que, simbolicamente, leva o indivíduo de volta à sua verdadeira pátria.

As pequenas viagens (casa III) oferecem o saber depositado nos livros, enquanto a casa IX convida a conhecer a sabedoria.

A casa VIII é a casa da morte ou da colheita da vida. Mas a colheita vital só se realiza completamente quando se dissolvem as ataduras terrestres, quando se conquistou a liberdade absoluta. A maioria dos homens só solta suas amarras no ato da morte física. Mas para aqueles que encontraram o caminho para o próprio eu, significa a grande transformação, da qual emergirão através de um segundo nascimento.

Assim, entendemos como a casa da morte é simultaneamente a casa do despertar para uma forma mais elevada de vida. Mas também é a casa do julgamento que o homem deve exercer no interior de si mesmo, sala de espera obrigatória para a ascensão a um nível superior. É o passo necessário para o processo de purificação interna que precede ao despertar. A cada noite, o sonho – sejamos ou não conscientes – não é outra coisa senão a roupagem simbólica de um julgamento interno, uma prestação de contas sobre o dia que acaba de ser concluído. Simbolicamente, o sonho está irmanado com a morte.

A casa VII é denominada a casa do matrimônio, das sociedades e dos inimigos declarados. Neste último setor – ainda pertencente à região diurna – é preciso unificar o reino da liberdade com o da necessidade. A herança celestial e a herança terrestre serão conduzidas para uma unidade harmônica, a fim de extrair a maior completude possível dessa união de opostos, do “superior” e do “inferior” no homem, o matrimônio entre o masculino e o feminino primitivo.

Mas esta tarefa deve ser adotada com plena consciência de que procede de um ato de liberdade. O casamento – mundanamente falando – se diferencia dos vínculos da casa V – uniões e relações eróticas – porque deriva de uma decisão em liberdade, e não de uma imposição forçosa da pulsão.

Cada tipo de vínculo entre duas pessoas, constituído pela livre decisão responsável, pode ser entendido – de acordo com o paradigma originário do matrimônio – como um mútuo complemento de polaridades contrapostas. Simultaneamente, se transforma para os envolvidos em uma prova da predisposição a renunciar, da disposição a sacrificar aquilo que, no equilíbrio das polaridades, passa a ser uma nota dissonante. Se carecerem de capacidade de abnegação, os membros da relação se enfrentarão como inimigos declarados.

Até aqui realizamos um dos múltiplos percursos possíveis sobre o significado das casas natais. Como sabemos, a interpretação mais ou menos sutil de um mapa natal está em grande medida condicionada pela capacidade do astrólogo de compreender e inter-relacionar a dinâmica das doze casas. Elas são as que permitem que os consultantes se percebam em suas múltiplas variantes, visões, atitudes e abordagens de diferentes situações da vida.

No caminho escolhido para a interpretação, assinalamos que o eixo Ascendente-Descendente produzia uma divisão entre uma zona superior, diurna, onde o indivíduo exerce sua liberdade pessoal, e uma região inferior, noturna, onde o indivíduo está condicionado pela necessidade.

Mas se recordarmos o axioma hermético “Assim em cima como embaixo”, surge a possibilidade de um novo olhar, onde as casas do hemisfério inferior se projetam sobre o hemisfério superior e vice-versa; para isso, desenvolveremos o tema seguinte.

AS CASAS NODAIS

Alexander Ruperti, em seu texto “Ciclos del Devenir”[1] (Ciclos de Evolução), referindo-se aos trânsitos dos nodos, comenta que cada casa natal tem a possibilidade de uma segunda numeração, tomando-se em conta o atalho retrógrado do nodo lunar.

Como é feito isto? As casas se enumeram a partir do Ascendente no sentido do deslocamento de um planeta direto, de forma tal que logo depois de casa I, prossegue a II e assim sucessivamente, até chegar ao setor XII. Enquanto que, se considerarmos um percurso de retrogradação a partir do Ascendente, a casa XII na verdade seria I, a casa XI se converteria em II e assim por diante.

Há anos implemento na prática do consultório este duplo significado das casas em si, independentemente dos trânsitos dos nodos.

O que contribui para esta segunda numeração? A possibilidade de obter de cada casa um primeiro significado relacionado à sua numeração natal, e outro ligado a um critério nodal. Algo assim como um sentido explícito, manifesto, e um subtexto que completa o dito sentido. Cabe recordar que, habitualmente, a Astrologia considera toda retrogradação como um processo reflexivo, interno e introspectivo.

Cada casa possui múltiplos níveis de interpretação, por isso muitas vezes resulta complexo compreender qual é o núcleo sobre o qual giram temáticas aparentemente diferentes. Como mero exemplo, vejamos a multiplicidade de significados atribuídos à casa V: filhos, docência, criação artística, amantes, jogos, especulação financeira, diversão, identidade, auto-afirmação, etc.

Mas tantas circunstâncias heterogêneas devem ter um ponto de confluência. Creio que a numeração nodal esclarece qual é esse ponto.

Em princípio, podemos abrir um amplo campo de reflexão teórica sobre a domificação, uma vez que nos permite jogar com um esquema fixo onde sempre a VIII natal é a V nodal, e onde precisaremos unir o significado de uma e outra. Em uma segunda instância, pode ser muito útil para compreender temáticas complexas de alguma casa em uma carta natal específica onde – além dos variados temas que expõem a presença planetária, o signo zodiacal da cúspide e sua regência – permita acessar de maneira mais clara o desafio interno que o setor está propondo.

Como em toda tarefa de interpretação, podemos seguir várias linhas. A que exporei a seguir não é mais do que isso: uma possível associação que não pretende fechar nem esgotar outras leituras válidas.

CASA XII NATAL – I NODAL. A introspecção proposta pelo setor XII se refere a que o sujeito constitua uma autêntica identidade (I), a que uma renovada auto-afirmação surja do profundo contato com o mundo interno onde moram seus temores, suas limitações, mas também suas capacidades secretas.

CASA XI NATAL – II NODAL. Todo projeto compartilhado (XI), para sustentar-se no tempo com vitalidade, deve ser nutriente, atender às necessidades (II) de quem conforma o grupo. Geralmente, os grupos se destroem porque em pouco tempo se descobre que cada integrante depositou necessidades diferentes e nem sempre compatíveis.

CASA X NATAL – III NODAL. Para manter um rol social é necessário ter em foco o que se está “negociando” (III), o que se entrega em troca do que se ganha; é um assunto de custo / benefício. Quando se investe demais, o lugar social se torna insuportável – fagocita o sujeito, como pode haver acontecido com Marilyn Monroe e tantos outros. Quando se investe de menos, não é possível manter o que foi conquistado.

CASA IX NATAL – IV NODAL. A busca filosófica de sentido implica o encontro com uma primeira matriz, que dê conta da origem. Como dizia Aristóteles, é indiferente falar de verdades últimas (IX) ou primeiras (IV). Praticar uma certa religião ou filosofia nos torna parte de um núcleo íntimo. Por exemplo, na religião católica – e em outros movimentos religiosos – seus membros hierárquicos recebem a denominação de irmãos, mãe ou pai.

CASA VIII NATAL – V NODAL. Toda crise (VIII) implica que as condutas habituais se tornaram ineficazes ou obsoletas, por isso sucede a situação crítica. Portanto, é necessário lançar mão de soluções criativas, originais (V). Também é certo que o indivíduo se torna poderoso ao superar uma situação limite. Como dizia Nietzsche: o que não nos mata, nos fortalece.

CASA VII NATAL – VI NODAL. Os pactos, as relações de paridade que traça a casa VII, além de ser um árduo trabalho cotidiano – uma vez que as relações não são estabelecidas de uma vez nem para sempre – implicam, para perdurar, uma profunda consciência da interdependência mútua (VI).

CASA VI NATAL – VII NODAL. A busca da perfeição, da maestria, do domínio e da síntese do processo individual que propõe a casa VI tem como objetivo a entrega do melhor de si ao outro (VII). Caso contrário, se corre o risco de mergulhar em um processo narcisista próprio da casa V, acreditando que ninguém é melhor que nós mesmos para realizar eficientemente qualquer tarefa que empreendamos.

CASA V NATAL – VIII NODAL. A necessidade humana de deixar rastros de seu passo pela vida – filhos, criações, etc. (V) – leva implícita a noção da finitude da existência (VIII). Se não fôssemos mortais, não necessitaríamos tão intensamente transcender através da obra, em uma tentativa de burlar a morte e o esquecimento.

CASA IV NATAL – IX NODAL. O pertencimento a um clã (IV) antigamente estava determinado pela crença nos mesmos deuses, no mesmo totem (IX). Isto se poderia pensar como uma das razões da exaltação de Júpiter – regente natural da IX – em Câncer, signo natural da casa IV. Para quem nasceu na América, da conquista européia em diante, nossas origens estão longe, no exterior.

CASA III NATAL – X NODAL. Toda comunicação (III), para não converter-se em um balbuceio sem sentido, necessita que cada interlocutor tenha medianamente claro aonde quer chegar (X). As brigas entre irmãos, ou entre pares, são um mau caminho para alcançar objetivos, embora às vezes sejam o único caminho que o sujeito perceba como factível em pró de afirmar seu lugar no mundo.

CASA II NATAL – XI NODAL. Para que as necessidades próprias (II) possam ser satisfeitas – ainda que de maneira transitória – é indispensável que o indivíduo defina um certo projeto (XI) em relação a sua própria vida. Do contrário, sente que quanto mais tem mais necessita, uma vez que este ter não está ligado a uma perspectiva de si mesmo. Quando se está divorciado de um desejo genuíno, a pessoa crê necessitar o que na verdade são só insígnias de poder geradas pela sociedade de consumo.

CASA I NATAL – XII NODAL. A auto-afirmação, o Eu Sou (I), quando se converte em uma excessiva grandiloquência reiterativa, constitui-se em uma prisão para o indivíduo (XII). É uma armadilha que impede o sujeito de apoiar-se em outras partes de si que também lhe são próprias. A verdadeira auto-afirmação, para ser tal, necessita de um profundo conhecimento do mundo interno.

Até aqui, ficam vários caminhos abertos para a prática da interpretação:

– Traduzir esta proposta teórica em situações concretas de determinadas cartas natais, especialmente as que apresentem configurações notáveis de aspectos: um stellium remarcando um setor, uma quadratura T, um yod ou uma cruz cósmica.

– Para cada Ascendente existe um determinado caminho como matriz, contrário à direção do zodíaco tradicional. Deste modo, por exemplo, todo Ascendente em Áries terá:

Casa II em Peixes: a auto-afirmação da vontade (Áries) precisa se enriquecer de compaixão e sensibilidade.

Casa III em Aquário: o impulso individual (Áries) é potencializado quando é posto em função de ativar um projeto comum com o entorno.

Casa IV em Capricórnio: o desafio de constituir-se em um ser autônomo (Áries) também implica responsabilidade e compromisso com nossas origens.

Casa V em Sagitário: a vontade (Áries) deve submeter-se a valores transcendentes para sua realização genuína.

Casa VI em Escorpião: a ação (Áries) é mais eficaz quando se desdobra mediante estratégias elaboradas.

Casa VII em Libra: o impulso (Áries) se completa quando se oferece em função da colaboração com o próximo.

Casa VIII em Virgem: a iniciativa (Áries) precisa purificar e discriminar seus objetivos.

Casa IX em Leão: a conquista de novos territórios (Áries) adquire sentido quando se é capaz de desfrutar com alegria e generosidade o que foi conquistado.

Casa X em Câncer: a intrepidez (Áries) consegue seu maior lucro quando funda uma estirpe de seres valentes.

Casa XI em Gêmeos: a ousadia (Áries) multiplica seus efeitos quando é compartilhada com iguais.

Casa XII em Touro: a luta (Áries) enriquece o indivíduo na medida em que contribui para a segurança e firmeza interior.

PALAVRAS FINAIS

A reflexão sobre as casas natais e nodais permite entender a relação de espelho suscitada no sistema de casas, quando são superpostas utilizando-se como eixo a linha do Ascendente-Descendente. O jogo especular permite observar de maneira prática o axioma “Assim em cima como embaixo”.

Mas ainda fica outro assunto interessante para pensar. É sugestivo observar que na inter-relação entre casas natais e nodais, o número das mesmas sempre soma 13 (a XII é I = 13, a XI é II = 13, a IX é IV = 13, etc.).

A letra número 13 do alfabeto hebreu é Mem – uma das chamadas letras mães – cujo significado é água. O valor numérico de dita letra é 40, um valor relacionado com processos de transformação e purificação.

40 dias e 40 noites chove antes do dilúvio universal. 1. Moisés 7,12.

40 dias e 40 noites jejua Moisés no monte Sinai. 5. Moisés 9,9.

40 dias e 40 noites jejua Jesus no deserto. Mateus 4,2.

40 anos Moisés conduz os hebreus através do deserto. 5. Moisés 2,7.

40 semanas são as que nada o embrião no líquido amniótico.

De maneira que este esquema não só permite unir o que está em cima ao que está embaixo, o ser da liberdade com o da necessidade, quer dizer, o ser humano em sua totalidade, mas também torna possível compreender que a união das casas natais e nodais nos oferece transmutação e, através do batismo – a purificação pela água – ingressar em outro nível de consciência.

silviaceres@gente-de-astrologia.com.ar


[1] Ciclos del Devenir. Alexander Ruperti. Editorial Kier. Buenos Aires, 1982. Página 89

 

Rio de Janeiro, 22 de abril de 2011.

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